PEDALAR É PRECISO!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

SITUACIONISMOS


No tempo do Estado Novo, a palavra que melhor caracterizava esse triste regime, a palavra que toda a gente conhecia era a palavra situação. Para quem sabia que fulano de tal era da situação, essa pertença tinha um forte e óbvio significado. Toda a gente sabia o que é que isso queria dizer, e tudo isto apesar de o país ser maioritariamente analfabeto e apolítico.

Sabia-se que quem estava na situação era gente que tinha algum poder, que isso lhe dava vantagens, grandes, pequenas ou enormes. Podia consistir apenas em ter acesso a um emprego de contínuo ou de mulher-a-dias numa repartição, podia ser uma pequena protecção, um favor, uma licença para uma mercearia, um café, uma dispensa da licença de isqueiro ou de outra coisa qualquer.
As vantagens substanciais, essas tinham naturalmente a ver com grandes negócios e com grandes privilégios. Mas tudo funcionava pelo melhor, o sistema era completamente interclassista.

Na sua luta pela sobrevivência, as pessoas comuns acomodavam-se com os poderes da situação, embora em privado contassem histórias, rumores ou anedotas nada favoráveis aos situacionistas. Mas o imaginário popular curvou-se sempre respeitosamente perante aquele vasto território subterrâneo de cumplicidades e vassalagens invariavelmente apoiadas pelas competentes autoridades oficiais.
Durante quase 50 anos, as coisas funcionaram assim. Dir-se-á, são histórias tristes mas são histórias antigas, valerá a pena perder tempo com isso?

Leio os jornais, leio as notícias, leio os comentários, vejo telejornais, ouço os comentadores na televisão e percebo que há um nexo entre quase tudo o que leio, vejo e ouço. Percebo também que esse nexo tem a ver com o velho situacionismo salazarista.

Não vou dar exemplos, eles saltam à vista.

Jornais e telejornais, as cenas repetem-se invariavelmente. Há o deficit, há o orçamento, há o tango Sócrates-Passos, há os bancos, há as agências de rating, o euro, a Merkel, a Comissão de Bruxelas, o Sócrates, o Cavaco.

Às vezes, também se fala de corrupção, de desemprego, de austeridade, de pobreza, and so on, também da ausência de futuro para os jovens. Mas embora tudo isso exista, tudo isso é triste, tudo isso é fado.

Nas agendas jornalísticas, há também breves referências à campanha para as eleições de 23 de Janeiro, nas quais se sublinha principalmente a inevitável reeleição do candidato-presidente. Mas não se percebe se os autores dessas predições estão verdadeiramente convictos que essa reeleição impedirá o descalabro que se anuncia para 2011 e anos seguintes.

No meio das agendas, dos discursos, dos ditos e dos não-ditos, da propaganda e da contra-propaganda, há as tretas da democracia, o governo, o parlamento, a opinião pública, o presidente da república, tudo intocável!

No cafarnaum de todos estes consensos mediáticos, há uma questão que mereceria ser colocada: será que os faiseurs d’opinion, os jornais e a televisão, admitem que possa haver outras alternativas, será que faria sentido dar a voz a outros protagonistas, a outros pensamentos, porventura a algumas heterodoxias?

Mas que raio de questão, dirão os respeitáveis editores. Para os senhores e senhoras que todos os dias nos debitam as palavras que nos ensurdecem, existe uma única, verdadeira e óbvia incógnita que é a seguinte: no bloco central, quem é que vai mandar nos próximos anos? Eis a suprema incerteza que domina esses esclarecidos espíritos e preocupa as suas preocupadas consciências.

Muitos empregos, muitas assessorias, muitos negócios, muito dinheiro e muitos privilégios estarão em jogo dependendo de quem sejam os donos da futura situação.
É aí que entram em cena os faiseurs d’opinion. Não apenas aqueles que escrevem e que opinam, mas principalmente os que pagam e os que conspiram, os donos da situação, os fazedores de situacionistas.

O povo vai lendo, o povo vai ouvindo, o povo é sereno, já dizia o saudoso Pinheiro de Azevedo. Valha-nos isso, nunca se sabe.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ROTTWEILERS




Rottweiler? A palavra é estrangeira, é alemã, tem a ver com um cão pastor dos Alpes, originário dos arredores de Rotweil. Cães são apenas cães, não tenhamos preconceitos. E estes rottweilers até tinham funções muito úteis, conduziam os rebanhos.

Mais tarde, tornaram-se cães polícia, porque eram agressivos, muito robustos, ágeis e resistentes.

A verdade é que costumo reagir mal, sempre que ouço esse nome, haverá muita gente que reage assim e com razão. Rottweiler, quando ouço a palavra, ela vem invariavelmente acompanhada por uma notícia que mete uma desgraçada vítima atacada por um cão, cujo dono passará o seu tempo a divertir-se porque o dito cão mete imenso medo. O problema é que isso não fica por aí, apenas pelo medo, e temos então mais uma desgraçada vítima do tal cão.

Mas o significado do conceito rottweiler tornou-se mais problemático na última semana, graças às indiscrições dos Wikkileaks.

A história é conhecida.
Um embaixador americano em Lisboa terá procurado sossegar os seus patrões de Washington na carta que lhes enviou sossegando-os quanto aos voos dos prisioneiros que iam para Guantánamo e passavam pela base das Lages. Escreveu o embaixador, o Governo português não era problema, o Sócrates e o Amado eram óptimos, estavam ajudar, não se preocupassem.
Havia apenas um pequeno problema, um pormenor de somenos, uma deputada do partido socialista, de nome Ana Gomes, ela tinha a mania de não largar o osso. Era uma rothweiler que continuava a insistir sobre o carácter ilegal daqueles voos de prisioneiros da CIA a caminho de Cuba-Guantánamo.

O embaixador gringo deve perceber imenso de cães, o que não é o meu caso. Cães ao largo, longe, não me meto com eles, espero que eles não se metam comigo, é assim que deve ser. Nada a acrescentar.

Mas, passei a ter dúvidas sobre os rottweilers e, na minha ignorância, até pensei, pensando no Bento XVI, passe o pleonasmo, até talvez sejam mais interessantes do que os pastores alemães.

Os rottweilers pelos vistos não largam o osso, são persistentes, isso parece-me bem, estão no seu papel de cães. Mas estes cães não são pessoas, haverá sempre necessidade de alguém que os controle. Ora, o embaixador americano parece dar a entender que alguém controlará a deputada Ana Gomes.

Ora, neste aspecto particularmente sensível e significativo e pertinente and so on, o sr. embaixador USA parece ter-se enganado.

É que a deputada socialista Ana Gomes não continua apenas a persistir quanto à denúncia da responsabilidade do governo português na sua cumplicidade com os crimes das autoridades americanas.
Agora, a deputada resolveu denunciar outras cenas vergonhosas do Estado português e seus altíssimos e digníssimos representantes e dirigentes. Não se limita a falar de Guantánamo e da base das Lages e das responsabilidades dos seus colegas de partido Sócrates e Amado. Agora acrescentou uma queixa à Comissão Europeia por causa do sinistro negócio dos submarinos alemães comprados pelo governo português.

Mas há aqui nesta denúncia um problema bicudo. Quem é que conduziu o sinistro negócio? Foi o primeiro-ministro português Durão Barroso. Quem é que vai apreciar a queixa da deputada Ana Gomes? O sr. Durão Barroso presidente da Comissão de Bruxelas.

Haverá outros rottweilers políticos prontos a atacar na cena política deste pobre e pequeno país? É que ossos apetecíveis e saborosos não faltam.

De todos, qual será o maior e mais gostoso de todos? O BPN, claro.

O BPN, aquele banco dos dilectos amigos e companheiros do doutor Cavaco.

O BPN, aquele promíscuo negócio “nacionalizado” pelo Sócrates e pelo seu dilecto ministro das Finanças, em nome do perigo sistémico da eventual falência do dito banco.

O BPN, aquele poço sem fundo que já custou quase cinco mil milhões de euros ao Estado português.
Ou seja, traduzido por coisas concretas que toda a gente entende, que já custou pelo menos os cortes no abono de família, no subsídio de desemprego, nos salários da função pública, o congelamento das pensões, os aumento de impostos, etc., etc.

Agora, o Sócrates e o Santos das Finanças resolveram investir mais 500 milhões no tal de BPN. Haverá alguém capaz de parar a diabólica engrenagem destas infindáveis mesadas? Rothweilers?

sábado, 11 de dezembro de 2010

A FOME ESTÁ NA MODA


O doutor Cavaco foi à TV dizer que os portugueses deviam ter vergonha pelo facto de haver outros portugueses que estão a passar fome.

Registei a comunicação, confesso que quase me comoveu.

Mas, ponderando as doutas palavras, confrontando os meus botões, cheguei a uma conclusão inevitável: nem sempre o que parece é. Por outras palavras: não inventei a pólvora.

Primo, provavelmente, muitos desses famintos a que o sr. presidente se estaria a referir nem serão assim tão portugueses, simplesmente tiveram o azar de vir cá parar, vieram para trabalhar, muitos nem sequer terão dinheiro, nem casa, nem país para onde voltar.

Secundo, quando falou de fome, o doutor Cavaco provavelmente estaria a referir-se àquela história das bandeiras negras contra a fome, que apareciam na televisão. Mas isso já foi há bastantes anos, aconteceu nos idos de 1990 quando o agora presidente-candidato era o todo poderoso primeiro-ministro.

Lembro-me que na altura ele não gostou nada nem das tais bandeiras, nem de que se falasse publicamente que havia portugueses com fome. Na sua autorizada opinião, os culpados de tudo isso eram as forças do bloqueio.

Tertio, o que é que mudou então desde essa época das bandeiras negras?


Explique lá doutor Cavaco essa sua conversão, por que é que agora se comove tão facilmente por causa dos desgraçados que não têm que comer, que não têm um tecto, que não têm futuro, que estão perdidos?

Pesa-lhe alguma coisa na sua consciência, doutor Cavaco?
Sente-se envergonhado?

Esta cena de televisão, o discurso eleitoral para povo ver fez-me pensar em Molière, fez-me pensar no Tartuffe, para ser mais preciso.

A hipocrisia política não é muito diferente da hipocrisia do quotidiano, da hipocrisia nas relações humanas. Mas ela é certamente mais sofisticada.

Além da falsa ingenuidade, a hipocrisia dos políticos de sucesso joga com a falta de memória e as desatenções da gente comum.

O pessoal vê televisão, ouve umas coisas aqui, vê outras ali, repara nisto e naquilo, mas não se dá conta, vai esquecendo, a luta pela sobrevivência está cada vez mais difícil. Há outras coisas em que pensar, o emprego, as contas da casa, os filhos, as doenças, o orçamento do fim do mês, o patrão, o mundo está cada vez mais a ferro e fogo como diria a Fred Vargas. No meio de tudo isso, a memória vai-se perdendo, o sentido crítico é um luxo exorbitante.

O povo que vota tem a memória curta, comove-se facilmente, o povo gosta de ver os políticos pavonearem-se na TV. Qu’est-ce qu’on peut faire?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

D. DUARTE A PRESIDENTE



Os reis de Portugal, tenho deles uma boa recordação dos tempos de escola, da escola primária.

Sabíamos a cronologia completa dos reis de todas as dinastias, sabíamos pormenores disto e daquilo, havia muita manipulação, claro.

Tinha os meus reis preferidos, D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. João I, D. Pedro V.

Mas o D. Afonso VI, o 2º rei da dinastia de Bragança era o que despertava mais a minha curiosidade, não percebia muito bem aquela história de ele ter perdido o trono e a mulher para o próprio irmão, chocava-me que o rei tivesse acabado tristemente os seus dias naquele palácio de Sintra preso no seu quarto, enquanto o irmão se regalava. Uma história de família provavelmente como muitas outras, entre os senhores das monarquias devia ser mais ou menos assim, era a justificação que dava a mim próprio.


Da República, a escola primária não me deixou propriamente recordações.

Presidentes da República? Havia alguns nomes, mas referências, histórias, nada disso, vazio total. As Repúblicas não têm história, pelos vistos.

Na primeira República, os presidentes eram eleitos por uns comités que mandavam no parlamento.

Na República do Salazar, o presidente passou a ser eleito, não sei desde quando nem por que razões, por sufrágio universal. O povo passou a ser chamado a votar, inovação extraordinária para uma ditadura, estava muito segura dos seus apoios, deve ser o caso.

Mas, depois das eleições em que o Delgado foi vencido pela trafulhice geral, comandada pela pide e pelos lacaios da união nacional, o partido do Salazar, este decidiu acabar com essa história do sufrágio universal. Acabou-se, o Américo Tomás passou a ser eleito por um colégio reservado ao pessoal da assembleia nacional salazarista.

Percebe-se que, depois de 1974, a Constituição do novo regime tenha decidido que a eleição do Presidente da República passaria de novo a ser feita por sufrágio universal. Era a revolução, donc, passemos a palavra ao povo.

Mas foi uma mudança cheia de ambiguidades. De revisão em revisão constitucional, foi-se passando de um regime semi-presidencialista para um regime semi-regime, ou seja, confuso à boa maneira portuguesa. Ou seja, racionalidade, clareza, transparência, responsabilidade, nada disso tem a ver com a nossa Weltanschauung como gostam de dizer os alemães.

Assim, passámos a eleger, nós, o povo, um tipo que é suposto ser o vértice, o dirigente mais importante do Estado, aquele que toma as grandes decisões, aquele de que toda a gente espera principalmente nos momentos mais difíceis que tome as grandes, as complicadas e decisivas decisões. Era isto que se esperava, mas num regime semi-regime, a lógica diz-nos niente, nada, tenham juízo.

Oh, Cavaco, o que é que tens andado a fazer durante todos estes anos de presidente? Andaste a preparar o teu segundo mandato, não foi?

Grande economista, onde é que estavas em Setembro de 2008, quando já toda a gente via a maldita da crise a cair-nos em cima com as garras afiadas?



Andavas a divertir-te com as escutas lá no teu pequeno palácio ali em Belém, tens-te sentido na pele dum reizinho ameaçado pelas intrigas dos teus cortesãos? Divertido, pas vrai?

Divertiste-te mais com aquela história do estatuto dos Açores ou com história das escutas?

E o que é que vais fazer agora, quais são os teus planos para o novo mandato?

Será que tens mesmo planos, ou será que estás apenas à espera que talvez a certa altura alguém te reconheça e tu próprio te sintas finalmente como uma pessoa importante na história deste pequeno país?

Vais ser eleito, o povo é quem mais ordenha, é seguro, o povo é sereno já dizia o Pinheiro de Azevedo no Terreiro do Paço.

Bendita serenidade, por mim ficava mais sereno se o povo resolvesse acampar no Terreiro do Paço e só de lá saísse quando tu te fosses embora, tu e os teus amigos, que são inúmeros, nem sequer vale a pena pronunciar os seus nomes.

Todos os políticos são iguais na sua insignificante vaidade e mediocridade?

Ontem ouvi o companheiro Duarte de Bragança na televisão. Gostei de ouvir o homem, é-me simpático, se calhar isso terá a ver com alguma nostalgia infantil pelos antigos reis de Portugal.

É também verdade que me reconheço no discurso dele.

Defendeu o cooperativismo, falou do António Sérgio, não parece que goste muito nem do mercado nem do PPM, foi expulso de Angola pela pide e agora quer obter a cidadania timorense.

Em alternativa à união europeia de má memória, defende uma aproximação ao Brasil e aos outros países lusófonos, ou seja, quer que a CPLP passe a ser a nossa UE.

Por mim, não tenho nada contra, tudo pelo contrário. Angela Merkel, Durão Barroso, Sarkosy, Berlusconi, o que é que eu tenho a ver com essa gente?

Oh! Duarte de Bragança candidata-te a rei-presidente, prometo que votarei em ti, companheiro!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

PORTUGAL E A EUROPA

Já não falta assim tanto tempo, talvez se devesse começar a perguntar: será que Portugal conseguirá chegar intacto ao seu primeiro milénio?

Sabe-se que somos o país mais antigo da Europa, mas terá alguma vez Portugal sido europeu?

Portugal é um país que nunca se interessou nem muito nem pouco pela Europa. E os europeus sempre nos pagaram na mesma moeda.

Somos demasiado pequenos e periféricos, nunca pesámos nas lutas de poder do velho continente. Vantagem óbvia: felizmente nunca tivemos que participar em guerras alheias de religião, de ocupação, de sucessões dinásticas.

É também verdade que não tivemos aliados, falo de aliados tu cá tu lá. Faz parte da cartilha nacional dizer-se que os ingleses sempre foram nossos aliados, a mais velha aliança do mundo, bla bla. Mas que aliança!


Os britânicos vieram cá parar no séquito da D. Filipa de Lencastre para nos defenderem contra os nossos inimigos históricos, ou seja, contra os castelhanos, “nuestros hermanos” é o que se costuma dizer nunca percebi porquê.


Por causa desses “aliados”, tivemos que furar o bloqueio continental decretado pelo Napoleão e lá vieram os franceses com os seus generais, marechais e outros que tais. Além das carnificinas, o que é que resultou de tudo isto? A independência do Brasil e uma guerra civil interminável. Quanto à revolução industrial o que era isso? Até com os lanifícios e o vinho do Douro do Marquês de Pombal a pérfida Albion se abotoou.


E ainda o século XIX não tinha chegado ao fim, tivemos a prenda do Ultimato de sua majestade britânica, vergonha, humilhação, desgraças, só desgraças.
E, poucos anos depois, ainda mal tinha a monarquia acabado, para defender a aliança aliança-ultimato, lá mandámos o nosso patético exército fazer-se massacrar pelos alemães em La Lys em 1918.


Valerá a pena relembrar todas estas tragédias?


Houve um momento em que a poderosa Europa se deu conta de que Portugal existia. Foi em 1975, quando os governos europeus entraram em pânico, histéricos com o nosso PREC, que eles viam como a ameaça de uma espécie de Cuba europeia.


O pânico desses senhores explica tudo o que se passou a seguir.


O Dr. Soares foi autorizado a proclamar que a Europa estava connosco. E lá entrámos para a CEE, os nossos problemas, o nosso atraso endémico iam finalmente ser resolvidos, Portugal ia-se tornar um verdadeiro país europeu, rico, moderno e reconhecido entre os seus pares. E não tardou que esse reconhecimento fosse devidamente consagrado: fomos admitidos no restrito clube pleno de promessas dos países do euro, o eldorado dos tempos modernos…


Mas Portugal agora está na falência, só não vê quem não quer ver ou quem utiliza o seu poder para enganar o povo ou para se abotoar.


Primeiro a Grécia, agora a Irlanda, a seguir Portugal.
Quem nos valerá nesta súbita desgraça?


Por que não implorar à Santa Sé, ao Vaticano, à Santa Madre Igreja, ao Papa, why not?


No auge da nossa glória passada, não foi ao papa que o venturoso rei de Portugal D. Manuel I enviou a sua famosa embaixada dos elefantes?


Não se tratou de uma qualquer embaixada a sua majestade britânica, nem aos reis de Espanha ou de França. Foi uma espécie de exército do cartaginês Aníbal a atravessar com toda a sua impressionante logística os Pirinéus, a Côte d’Azur e toda a Península Itálica para chegar a Roma e prestar vassalagem ao Papa e assim se ajoelhar perante a Europa de há 500 anos.


Não era obviamente a Europa do espírito, a Europa de Leonardo da Vinci, de Petrarca, de Miguel Ângelo, de Bach, de Descartes, de Kant, de Espinosa, de Galileu, de Pedro Nunes, de Shakespeare, de Camões. Esta não era a Europa nem de D. Manuel nem dos reis seus sucessores.


Era a Europa do papa romano, cujas ordens eram devotamente obedecidas pelo Portugal católico.


Hoje, Portugal já não é assim tão católico e, talvez por isso ou porque se fiou demasiado nas promessas eldoradas do euro e da Comunidade Europeia, é um país falido.


A não ser que haja outra explicação para o que correu mal nesta triste história: nem o Prof. Cavaco nem o sr. Sócrates e o seu ministro das finanças terão sabido interpretar correctamente as ordens que a chanceler de Berlim lhes fez chegar através dos senhores de Bruxelas. O resultado, le voilà!


sábado, 30 de outubro de 2010

VIAJAR, SOBREVIVER


Sexta-feira, não sei bem porquê, parece ser dia aziago, deve haver alguma explicação. Todos temos as nossas superstições, superstição quer dizer medo. Medo é o normal da condição humana.
Quem é que não nunca acordou com o pressentimento de que vai ser atropelado ou de que lhe vão assaltar a casa ou que o patrão o vai despedir? Há dias de superstições, porque mentalmente representamos dias que parecem mais propícios do que outros. Tem a ver com histórias que nos contaram quando ainda chuchávamos no dedo, coisas que fomos ouvindo. Somos muito dependentes desses frágeis anos.

Não tenho nenhum preconceito especial em relação às sextas-feiras, mas a de hoje começou muito mal, um dilúvio interminável, parecia que vinha tudo abaixo, o caos. Será que o caos liberta?

Mas o dia lá foi correndo, para a tarde começou a haver sol, afinal, o tal de dilúvio, parece que, por artes mágicas, alguém tinha conseguido acalmá-lo.
Mas fica sempre aquele sentimento, perguntamo-nos e se tivesse continuado a chover mais meia hora?

É como a história do deficit, do orçamento, da falta de dinheiro, da bancarrota, do bando do Sócrates… O que é que se pode esperar? Está toda agente conformada, resignada, impotente. Inevitavelmente, perguntamo-nos: será que há algum piloto no avião?

Mas a verdade é que as sextas-feiras, por pior que seja a imagem que nós os que somos supersticiosos delas possamos ter, mesmo as sextas-feiras, dizia eu, podem trazer uma face redentora destes tristes dias de humanidade sem esperança.
Inacreditável.

A redenção desta assustadora sexta-feira encontrei-a, não sou como o S. Paulo da estrada de Damasco, nada me foi revelado, mas encontrei a revelação, imaginem aonde? Na Gulbenkian. É verdade, na Gulbenkian, naquele enorme e sofisticado anfiteatro com todo o pessoal que está ali para ouvir música, é isso que é suposto acontecer, a maior parte gente engravatada. Vamos abstrair.

O prato forte do concerto de hoje ao fim da tarde era o Requiem de Gabriel Fauré.
Não conheço nenhuma música como esta, provavelmente era por isso que eu lá estava no meio do pessoal mais ou menos engravatado.


É uma música única por muitas razões e sobre isso apenas alguns apontamentos.
Normalmente, quem está na primeira fila da orquestra são os violinos, com o primeiro, o segundo e todos os outros, são eles que mandam na orquestra. Aqui não.

Na primeira fila da orquestra que toca o Requiem de Gabriel Fauré, estão as chamadas violas de arco (ainda não se chegou a uma conclusão unânime acerca da designação portuguesa correcta desses instrumentos, que são um pouco maiores do que o violino e têm um som mais grave). Normalmente, as violas ficam entre o naipe dos violinos e o dos violoncelos.

Mas neste requiem, quem dá a nota são as violas, acompanhadas em primeiro lugar pelos violoncelos e pelos contrabaixos. Timbres graves, profundos eis a dominante.
Mas aqui as estrelas de Fauré são as vozes humanas. E, em primeiro lugar, as vozes do coro dos sopranos e dos tenores.

Comparado com todos os outros requiems conhecidos, este é muito especial. É sobre a morte, claro, mas é sobretudo um lamento, uma tristeza pelos desencontros por causa das tristezas da vida. Na história da música, não há nada de parecido com isto. Nem o Mozart chegou lá perto.

E depois, perguntará o ocasional leitor? O que é que eu tenho a ver com isto? Tem muito a ver, caro leitor.

Em primeiro lugar, porque é o meu requiem, aquele que eu amo.

Além disso, que não é pouca coisa, o espectáculo a que tive o privilégio de assistir hoje nesta sexta-feira quase diluviana e quiçá aziaga, confirmou qualquer coisa de que desconfiava já há algum tempo.

A coisa é o seguinte.

Não sendo crítico musical e nada qualificado para avaliar seja o que for em matéria de música dita clássica, deste espectáculo gostaria de registar o que mais me impressionou: as vozes extraordinárias das jovens sopranos do coro, e principalmente a voz e a presenças extra-terrestres da soprano Ana Quintans, de quem nunca tinha ouvido falar.

Ora, Ana Quintans é portuguesa e está a caminho de ser uma estrela dos palcos do canto.


Erro meu, distracção minha, ignorância, minha culpa, minha máxima culpa.


É que andamos todos distraídos, ocupados com coisas sem importância e não nos damos conta que o mundo está sempre a acontecer e a mudar.


Não nos damos conta, por exemplo, de que muitos dos nossos jovens vão indo por esse mundo fora à procura de oportunidades, à procura do lugar das suas ambições.


Não realizamos que, com esta letargia de morte em que parece ter mergulhado esta espécie de país, sobreviver passou a ser sinónimo de ressuscitar viajando para além de todas fronteiras.


É o velho destino português das jovens gerações sem futuro. Talvez alguém as ajude a ajudarem-se a si próprias.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

REPÚBLICAS


Uma semana depois do PREC 3, a palavra de ordem das comemorações republicanas foi“festejemos Portugal”. O primeiro-ministro Sócrates teve direito a muitos aplausos ali naquele sítio em frente à sede do Município de Lisboa de cuja varanda foi proclamada há 100 anos a República. Cena lamentável?

A verdade é que quem lá esteve a bater palmas foram os inevitáveis representantes da nomenklatura socialista e aliados, claro, como diria o Pinheiro de Azevedo, o povo é sereno, não entra em farsas, o dia até estava agradável, havia mais que fazer. Mas uma coisa não desculpa a outra.

É sabido que as comemorações manifestam sempre o oportunismo óbvio de se aproveitar a data para, em nome dela, se dizerem coisas que não têm nada a ver com os acontecimentos propriamente ditos, de se dizerem palavras em poses solenes para se mandarem recados de circunstância e alardear propaganda.

A sessão de descarada propaganda da praça do Município deve ter chocado todos quanto, no seu foro íntimo, comemoravam sinceramente o centenário da República e a prova de que nessa comemoração oficial prevaleceu a propaganda foi que o discurso do dia, nas suas diferentes versões, foi sempre uníssono.

Resumamos: quem não está de acordo com o orçamento PEC 3 do Sócrates e seus inevitáveis sucedâneos, quem não aceita os ultimatos alemães secundados pela Comissão Barroso, quem não se conforma com a ditadura dos que manipulam os mercados não é bom português. O que é que subentende esse discurso oficial sobre supostas dissidências? A mensagem é clara: há que começar a dar muita atenção a essa gente, aos dissidentes e seus eventuais apaniguados.

De degrau em degrau lá vamos assim chegando e ficamos cada vez mais perto daquele passo decisivo de qualquer prenúncio ou anúncio de ditadura: quem critica, quem não está de acordo, sabe-se lá, provavelmente haverá por aí alguém cúmplice ou agente de projectos terroristas.

Sabe-se por experiência o que é que pode acontecer a quem ousa não estar de acordo, a quem critica. Temos a longa história de perseguições, de autos-da-fé, de crimes. Quantos e quantos exemplos, lembremos apenas Giordano Bruno, António José da Silva, Dias Coelho, Orlando Zapata. Não deixemos a nossa memória adormecer.

Os discursos dos senhores que proferiram palavras supostamente comemorativas naquela cerimónia oficial cheia de pompa e circunstância, acerca de uma revolução com 100 anos exactos, os discursos desses senhores que por desgraça mandam neste país há demasiado tempo, esses senhores que vivem alheados do povo e o povo deles alheados, os discursos que proferiram tinham alguma coisa a ver com a revolução republicana de há 100 anos?

Uma revolução provavelmente prematura, uma revolução provavelmente demasiado citadina num país com oitenta por dento de analfabetos vivendo da terra, camponeses isolados na sua miséria, à mercê dos senhores, dos caciques, dos padres, dos funcionários do Estado, com a esmagadora maioria de mulheres coisa pouca sem quaisquer direitos, com o pequeno operariado industrial, os artesãos, os intelectuais que sonhavam um mundo novo, uma República sem senhores nem servos, muitos sonhos.


Sonhou-se muito nessa época há 100 anos, mas faltou uma mensagem para levar os sonhos destes e daqueles e daqueloutros a passar à realidade. E o sonho tornou-se um pesadelo em Maio, mês paradoxalmente florido, com os soldados descendo da capital católica até ao Terreiro do Paço, o que é que se poderia ter feito para que tal não acontecesse?


O que é que poderia ter sido feito para que uma parte da juventude não fosse apodrecer na Flandres em 1918, em La Lys? Que espécie de entendimento, de plataformas inter-classistas teria sido possível estabelecer, que alianças poderiam ter mobilizado as energias do país na senda do progresso, da justiça e da liberdade?


Comemorações com lições de história, reflexão política séria tudo isso é pedir demasiado no país apodrecido que temos. Questões inevitáveis teriam sido, por exemplo: estaremos ainda a tempo de enterrar o nosso atraso crónico, a tempo de colocar os sonhos a par da realidade, a tempo de enterrar os velhos complexos de inferioridade?


Nenhum dos políticos supostamente comemoradores teve a ousadia, a lucidez, o atrevimento de fazer a comparação óbvia que se impunha acerca do nó górdio destes 100 anos da história contemporânea de Portugal.


É que em 1910, tínhamos uma minoria muito activa, uma classe política talvez demasiado radical e utópica, demasiado apressada e irrealista. E em face do frenesim lisboeta, o que tinha mais peso eram os atrasos, os descompassos inevitáveis numa sociedade demasiado analfabeta, demasiado clerical, patriarcal, demasiado masculina.


Cem anos depois, o contraste, a reviravolta são totais, 360 graus: temos hoje uma sociedade muito avançada, moderna, muito qualificada, muito feminina e cosmopolita. E os políticos? Uma classe política provinciana, desonesta, demasiado incompetente e submissa a altos interesses. Nó górdio.