PEDALAR É PRECISO!

sábado, 9 de abril de 2011

UNIÃO EUROPEIA, DE FALÊNCIA EM FALÊNCIA, ATÉ À FALÊNCIA FINAL




Durante dois ou três dias, Portugal tem aparecido nos telejornais, claro que pelas piores razões. Mas, esse protagonismo mediático não vai durar muito tempo.


É que nos próximos meses e pelas mesmas razões que agora nos tocam, caberá a vez a outros países, Espanha, Itália, Bélgica, França, on verra bien. Não falemos sequer dos países de leste da UE, não vale a pena. A guerra financeira europeia ainda vai conhecer muitos episódios.


Por curiosa coincidência, foi a partir da Hungria, que é um dos países mais problemáticos e falidos da União Europeia, que o mundo assistiu ao veredicto sobre Portugal, o veredicto emitido pelos senhores que mandam na dita união.


A mensagem desses senhores foi clara, os portugueses tiveram o descaramento de chumbar o PEC 4. Então, agora vão ter que aguentar outro pec que será muito mais pec. Pergunto eu, será que pec é abreviatura de pecado, abreviatura de castigo?


Falou o comissário da economia, falaram alguns ministros europeus. Humilhante ritual, diria mesmo chocante, se bem que nesta história já nada me choque. Ouvindo todos aqueles falantes com direito de antena, houve um momento em que não pude evitar odiar, foi o momento de despudorada arrogância do ministro finlandês quando ele se referiu ao que Portugal tinha a obrigação de fazer.


Parecia a rainha Vitória enviando o seu ultimato a Portugal em 1890.


Odiei instantaneamente aquele tipo apresentado como ministro. Odiei a Finlândia, não comprem Nokia, não façam férias nesse tal país dos mil lagos. Mandem a Finlândia para o reino dos pecs.


Finlândia, país sem história, país que só há pouco tempo é um país, antes disso provavelmente já era uma nação, mas uma nação durante muito tempo colonizada pela Suécia, nação que depois foi anexada pela Rússia e esteve sob protectorado da União Soviética, provavelmente em retribuição por ter acolhido Lenin quando este conspirava e redigia as teses de Abril.


A Finlândia de Sibelius, sim gosto do Sibelius e do seu poema sinfónico Finlândia, grito pela liberdade.


Então, o que é que nós fizémos, o que é que nós fomos incapazes de fazer para termos chegado ao ponto de ficarmos de repente dependentes da sentença desse país gelado e sem história?


Nós, país-nação mais antigo da Europa, nós que baptizámos o cabo da boa esperança, nós que fomos os primeiros europeus a chegar ao Japão, nós país meridional amado pelo Sol, astro-rei, país sem gelo e sem inverno?


Odiei a arrogância desse pequeno e desconhecido ministro finlandês, mas também odiei os responsáveis que levaram Portugal a mais esta falência.


Mas, odiar, odiar a Finlândia, isso não resolve nada. Está prometido, nunca irei à Finlândia, está resolvido, nunca comprarei nada que tenha o selo desse país. Qu’ils aillent se faire foutre. Voilà!


Não resolve nada odiar a Finlândia em particular, porque o problema é que a UE não passa duma abstracção criminosa, essa é a raiz.


Abstracção criminosa, porque a UE, a que existe, é a Europa dos banqueiros e dos políticos comprometidos com superiores interesses, os interesses de multinacionais, de especuladores e de máfias, a Europa germânica.


Uma Europa contra as nações e contra os povos europeus.


Uma Europa burocrática de grandes tratados assinados à margem da vontade dos eleitores, por cima dos povos, por cima dos que não têm poder se bem que votem nos seus países.


Uma Europa dominada pelos directórios políticos da direita conservadora que sempre que decide jura pela cartilha neo-liberal.


Uma Europa política que só fala de Estado Social quando faz contas sobre o que custa a Segurança Social.


Uma Europa reduzida a uma espécie de esquerda-caviar com o seu pessoal, os seus dirigentes, os seus deputados bem instalados nas benfeitorias que os protegem da precariedade, do desemprego e de não terem um sítio para dormir.


Naquele momento em que se exprimiu a arrogância desse pequeno país sem história que é a Finlândia eu odiei também a falência da esquerda que devia e não defende os povos europeus.


Odiei todos quantos se deixaram endrominar pela propaganda do “Europa connosco”, odiei os que, tendo começado por ser eurocépticos, depois comodamente, lentamente se foram instalando no sistema das viagens a Bruxelas e se conformaram silenciosamente perante a dominação dos países mais ricos.


Antigos eurocépticos que obedientemente aceitaram a ditadura dos tratados de Maastrich, de Nice, de Lisboa. E que obedientemente continuam a aceitar o veredicto dos senhores do eixo Berlim/Bruxelas em relação à Grécia, em relação à Irlanda e agora também em relação a Portugal.


Nesta história, muitas coisas já foram aqui ditas e repetidas, abreviemos.


A Europa tem uma longa história, séculos complicados, muitas guerras, muitas desgraças, muito sangue.


Uma história com muitos povos à mistura, muitas diferenças, muitas línguas, muitas religiões, muitos climas, muitos desentendimentos, muitas culturas.


Reconheçamos, muitas fronteiras mentais foram ultimamente abolidas entre europeus. Estou-me a referir às pessoas, aos povos. Também é verdade que, dentro das fronteiras da EU, não houve guerras com canhões, com mortos, com destruições.


Mas a guerra não acabou. La guerre n’est pas finie.


A guerra contra os povos europeus continua, o capital financeiro e sem pátria não precisa de canhões.


Tem os seus burocratas, os seus especuladores, os seus funcionários, os seus políticos bem comanditados.


Tem a sua arrogância sem limites.


Uma arrogância suicidária, cujas consequências, se essa arrogância sem limites não for travada, serão muito piores, comparação meramente simbólica entenda-se, do que o tsunami japonês de 11 de Março.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

NADA VAI MUDAR, TUDO VAI SER PIOR


O homem demorou 45 minutos a aparecer no ecrã para apresentar a sua comunicação em directo na têvê. Grande expectativa, essa malta da televisão quase entra em transe nestas alturas, é que o momento parecia, devia ser, grave e solene.

Primeiro directo, às 20 horas, o homem apresentou-se em mangas de camisa, não se percebeu o que é que estava para ali a dizer.

Segundo take, muito mais tarde, lá apareceu ele com o seu ar do costume de vendedor de banha da cobra, já não estava em mangas de camisa, apareceu com um fatinho e pôs-se a falar. Disse alguma coisa que valha a pena reter?

Disse sim, sou testemunha disso, o homem disse exactamente o contrário do que tinha continuado a afirmar no dia anterior com sua apaixonada convicção do costume, vendendo o seu peixe, que não queria ajuda externa para Portugal, que estava em causa o superior interesse do país, que acima de tudo era isso que interessava defender.

Agora, naquele momento sério e solene, com o seu fatinho e em directo na televisão, tinha outra opinião, outras notícias para dar, quem estava mais atento percebeu que pela sua nova opinião passaram por ali os nossos respeitáveis banqueiros.


Ficámos então a saber que ele primeiro-ministro demitido José Sócrates, decidiu pedir ajuda ao exterior, mas quanto ao resto, quanto àqueles pequenos pormenores quanto é que isso da ajuda externa vai custar em moeda de austeridade, cortes de pensões, cortes de salários and so on, quem é que vai dar a tal “ajuda”, quantos milhares de milhões é que vão emprestar e quantos é que os que dão a “ajuda” vão receber…

Ficámos na mesma, o homem não explicou nada, fez a sua propagandazita do costume, ele é o maior, o PS é que é o grande partido da esquerda popular, tudo o resto são sabotadores.

Muitos dos que presenciaram mais esta cena terá gostado do discurso, normalmente quem aparece a falar na televisão sobretudo se parece que têm algum poder, as pessoas em geral apreciam muito, não duvido, sabe-se lá, até é possível que o homem volte a ganhar as eleições. Case study, país sadomasoquista.

E, a seguir em resposta a mais este cansativo número de circo, é assim que manda a democracia televisiva, veio o outro, o chefe da alternativa da oposição.

Alguém conseguiu reter alguma coisa do que este outro nos veio dizer?

Devo estar cansado dos pingue pongues entre os protagonistas políticos do momento, sinceramente não percebi nada, por outras palavras, o que percebi é que este outro homem de nome Passos supostamente líder da oposição não tinha nada para dizer. Alguém o pôs ali a falar, parole, parole, parole…Em que é que ficamos?

Sejamos politicamente incorrectos, chega de conversa.

Haverá por aí alguma cabeça iluminada, inspirada pelos deuses? Não estou a querer dizer a palavra líder, para mim essa é uma palavra afascistada.

Portugal tem uma longa história de sacrifícios e de pobrezas, de gente muito sacrificada vítima da miséria. Séculos.

E também uma longa história de uns quantos que se vão habilmente aproveitando dessa miséria dos mais fracos.

Uma longa história dominada por sanguessugas, que se alimentam da corrupção e da incompetência de elites cuja arrogância de classe não tem limites.

Sejamos então politicamente incorrectos, sejamos consequentes, falemos de alternativas. Depois das eleições de 5 de Junho o que é que vai mudar?

Nada vai mudar, vai tudo voltar a Março de 2011, o que quer dizer que vai tudo ficar pior. O Bloco e o PC vão fazer a sua apressada encenação de “esquerda”, o BE bem que precisa de ajuda.

O PS vai tentar furar o cerco, para já vai querer sobreviver, depois se verá.

O PSD provavelmente vai para o governo e logicamente vai privatizar a Caixa Geral de Depósitos, o Serviço Nacional de Saúde e a Educação, neo-liberalismo a quanto obrigas, de facto esta gente não tem qualquer espécie de imaginação.

O CDS vai tentar colocar alguns pedregulhos no caminho do PSD.

Cenários alternativos?

Sejamos então completamente e definitivamente politicamente incorrectos.

Imaginemos. O pessoal votante, que se vai apresentar no dia 5 de Junho perante as mesas de voto, decide mandar de volta à sua insignificância os dois partidos gémeos do chamado arco de poder.

Ambos têm alternado no poder, supostamente um é socialista o outro será social-democrata. Até hoje não consegui perceber a diferença entre um e o outro.

A grande maioria dos votantes mandam-nos então embora, já chega, e escolhem uma espécie de coligação entre comunistas e democrata cristãos, compromisso histórico, estilo Aldo Moro.

Uma cena inesperada, uma espécie de desfecho estilo Islândia ou mesmo estilo Irlanda.

Se é o povo é quem mais ordena, então mandem essa gente embora, do passado façamos tábua rasa, é essa a proclamação que vem no hino da Internacional.

Isto de estarmos para aqui a imaginar a imaginação ao poder, são delírios inconsequentes.

O sistema de poder, a alternância partidária não vão mudar, claro que vão mudar os boys, tem que haver alguma alternância, mas os votantes vão eleger os servidores do costume.


Continuem, pois, a queixar-se!


terça-feira, 5 de abril de 2011

GUERRA GLOBAL








Guerras sempre houve, não me peçam que explique porquê, até poderá haver razões plausíveis, mas estou seguro que elas ultrapassam o meu entendimento.

No século passado houve duas guerras que ficaram conhecidas como guerras mundiais, uma espécie de medalha de ouro no pódio das guerras. A primeira dessas duas guerras ficou para a história conhecida como a grande guerra. Grande guerra europeia, entenda-se. Alemães e seus aliados dum lado, os outros europeus do outro, incluindo portugueses.

Alguns anos mais tarde, nem sequer foram precisos muitos para se rearmar a tropa fandanga, a mesma engrenagem recomeçou. De um lado, lá continuavam os alemães e em frente quem havia de estar, os mesmos da guerra anterior, Portugal não, valha-nos isso.

Mas desta segunda guerra pode-se dizer que ela foi de facto quase mundial, porque no jogo entrou um novo comparsa vindo de bem longe da Europa e que, em matéria de beligerância, não ficaria atrás dos nazis europeus da Alemanha. Lá vieram então os comparsas militaristas fascistas japoneses, marchando em ordem a partir do sol nascente.

Conquistaram praticamente toda a Ásia quase até à Oceânia. Conquistaram, ocuparam, com requintes terríveis, não quero falar disso.

Acabou essa guerra mundial e no dia seguinte tivemos direito a novo projecto de guerra também à escala mundial. Embora não passando de projecto, esta acabou por ser uma guerra mãe de muitas guerras. Guerra fria mas não frígida.

Para alimentar a guerra dita fria, falava-se muito do perigo de uma terceira guerra mundial, muitos europeus viviam nesse pânico. Mas na Europa, à parte os episódios da Polónia, da Hungria e da Checoslováquia, praticamente não aconteceu nada, caiu o muro de Berlim e aparentemente acabou a ameaça de terceira guerra.

Estamos agora noutro século, já não há a guerra fria, mas durante estes últimos anos, não têm faltado outras guerras, guerras com armas ultra-sofisticadas, armas que matam muita gente, principalmente civis. Iraque, Afeganistão, também não me apetece falar disso.

Apetece-me antes falar de uma nova guerra mundial, que já está no terreno mas cujos comparsas e inimigos ainda são mal conhecidos. Da primeira fase desta guerra, a qual está contida nas fronteiras da velha Europa, começam a ser conhecidas algumas das potenciais vítimas.

No rol dessas vítimas, plantados aqui neste pacífico rectângulo do litoral supostamente europeu, cá estão os portugueses. Lá está também outra gente periférica como nós, os nossos “compatriotas” gregos e irlandeses, que vivem em ilhas. Nós não somos diferentes, é que a península onde vivemos sempre foi uma ilha.

Esta nova guerra poderá vir a ser mundial, mas para já ela é apenas europeia. Mas, como provavelmente virá a ser mundial, ela não vai durar apenas quatro ou cinco anos. E, no meio da engrenagem já em marcha mas que nos escapa, nós pobres ilhéus, periféricos, pigmeus da grande união europeia estamos na primeira linha da infantaria que é mandada para a batalha, nós somos apenas carne para canhão. Paz às nossas almas.

Alguém nos designou para essa primeira linha desta guerra. Supostamente, são as agências de rating, rostos invisíveis que parecem ser os maus da fita. Desconfio desta versão.

Acredito que estamos no início duma guerra que não é propriamente mundial, ela é global, a escala é outra.

E, por detrás dessa guerra há como de costume estrategas nos seus gabinetes comandando os seus exércitos. Os empregados das agências de rating fazem parte desses exércitos.

Quem são os aliados e os inimigos nessa guerra?

Guerra entre ocidente e oriente, entre pacífico e atlântico? Poderá não ser uma guerra de fronteiras, uma guerra geográfica, não é provável que se trate duma coisa desse género.

O que sei é que a Alemanha está metida nisto.

Já lidera a Europa CEE, conseguiu anular o Sarkosy que é um inútil vaidoso, uma espécie de Daladier, e vai submetendo segundo um plano pré-estabelecido e por ordem de fraqueza, um a um, os países do euro. Depois, tratará dos outros.

As agências de rating estão a fazer um óptimo trabalho, nessa tarefa de arrumar os vassalos da Alemanha com os pecs, artilharia pesada.

A Alemanha prepara-se, assim, para a guerra global, está na fase Karajan, a orquestra tem que tocar afinada.

Mas, esquecer a própria história é sempre complicado e a velha Alemanha continua com dois velhos problemas e nos seus sonhos de glória wagneriana continuarão a pairar dois espectros, de nome Inglaterra e Rússia. Canal da Mancha mais estepes geladas, perguntem ao Napoleão e ao Hitler.

No rol das preocupações estratégicas alemãs, qual é então o inimigo? A China, obviamente. A China já esteve mais longe.

Imagino que todas as guerras nasçam sempre com um plano secreto, a coisa é demasiado séria, não pode ser deixada a amadores, a diletantes. Não percebo alguma coisa de guerras, nunca estive em nenhuma, nem dum lado nem do outro.

Li o Clausewitz, talvez tenha percebido algumas coisas.

Esta guerra que se perfila no horizonte e cujos conspiradores parecem ser as agências de rating de que nos fala a televisão, esta guerra está a chegar ao meu bairro mas ninguém se dá conta do que se está a passar. Entre surdas queixas, as pessoas vão-se esforçando por não dar demasiada importância ao que vão ouvindo aqui e ali.

Desconfio, no entanto, que muitos dos meus vizinhos estarão a tratar das coisas para se mudar para outro continente. Não se sentem seguros por aqui, estão muito desconfiados, a maior parte não acredita nem nos políticos nem nos banqueiros, nem nas tretas da televisão. Pressentem que não têm futuro, não há nada pior.

Penso que não têm razão, deveriam ficar, juntar-se, discutir, informar-se, a terra dos nossos pais, a terra dos nossos avós, a terra dos nossos filhos merece sempre que lutemos por ela. Não é porque sejamos melhores ou piores.


É por dever moral, por imperativo categórico, diria o Kant. Imperativo categórico contra os imperativos que fazem mover os senhores da guerra.


quinta-feira, 31 de março de 2011

A NOITE DO FMI


O Presidente da República falou hoje, 31 de Março de 2011, disse o que toda a gente já esperava, eleições a 5 de Junho, fez mais umas considerações sobre a gravidade da situação. De seguida, recolheu-se a penates, a oeste não houve nada de novo.

O pessoal, o povo se é que essa entidade ainda existe, depreendeu para si próprio que a subida da via sacra vai continuar nos próximos episódios. O povo é soberano e o povo nunca se engana.

The show must go on, tivemos pois direito na televisão às reacções partidárias à reacção presidencial.

O PS e o PSD falaram mais tarde, tarde demais para mim, além de que deste lado já não há pachorra para ouvir sempre as mesmas tretas.

O BE falou através duma deputada, a senhora não disse nada, já estamos habituados. Em frente.

O CDS exprimiu-se com todo o aparato pela voz do seu líder que curiosamente, ao contrário do que é costume, se apresentou completamente entaramelado. Pareceu-me muito a leste da gravidade do momento, falhou.

Veio também o representante do PC, o seu jovem líder parlamentar desparamentado da bela e muito elogiada gravata que lhe vimos há poucos dias.

Ouvimos o jovem líder, conhecido principalmente pela sua pública devoção à popular República Popular da Coreia do Norte a qual, coincidência curiosa, se prepara para entronizar um líder ainda mais jovem do que ele próprio, o qual sucederá em breve ao filho do grande líder Kim il Sung, deixemos de lado a coincidência e passemos ao que interessa.

Disse o senhor deputado, claro que não o vou citar textualmente, ainda bem que vai ser dada a voz ao povo, a situação é grave, a culpa de tudo isto é do PS, do PSD e do CDS. Todos juntos, entenda-se. Na lista dos responsáveis, não acrescentou o BE, percebe-se, o partido não lhe soprou o nome aos ouvidos. Partido é partido, qualquer comunista sabe que não há vida para além das paredes de vidro.

Foi uma noite televisiva informativa muito instrutiva, não porque tenha propriamente trazido alguma coisa de novo mas porque confirmou tudo aquilo que já se sabe ou se adivinha desde há muito tempo sobre o que é o mundo político deste rectângulo à beira mar plantado.

A bancarrota está por dias, a contagem decrescente já começou. Não se trata de um foguetão que vai voar pelo espaço sideral, é pena, é apenas uma contagem para a invasão do FMI e da fina flor da pirataria financeira internacional.

Enquanto tudo isso está a acontecer, o pessoal de S. Bento, a fina flor da república, reage como o famoso cãozinho do Pavlov, se vai haver eleições há que começar a malhar na esquerda, há que começar a malhar na direita, com todo esse desemprego temos que nos defender.

Este é o lado mais primário que pode ser proposto para o teor das explicações do jovem líder. É que o ilustre deputado deve ter emprego garantido, o partido não o vai abandonar, se bem que nunca se sabe, exemplos não faltam.

A questão que poderá ter vindo mais a propósito na vertigem que assalta nesta noite presidencial os espíritos dos telespectadores mais atentos, serão muitos, serão poucos, é outra.

Será genético, ou será casual, ou será apenas defeito mental das células cinzentas, o que é que impede que o PC possa ter momentos de verdade e de honestidade políticas, principalmente em situações-limite como aquela que estamos a viver? O que é que impede o PC de ser capaz de dizer simplesmente a verdade nua e crua? O que é que o impede de afirmar publicamente que a situação de bancarrota em que o país mergulhou, bancarrota que não é apenas nem principalmente financeira, é uma criação dos governos socialistas do agora demitido primeiro-ministro Sócrates?

Alguns poderão duvidar de tal afirmação de tipo categórico, estão no seu direito, mas o que é que impede o PC de dizer a verdade, a verdade sem subterfúgios, o que é leva este partido a misturar os verdadeiros culpados com outros supostos, todos no mesmo saco, sem espírito crítico e sem discernimento? É assim que essa gente faz política?

Se é assim, quanto a honestidade política e a inteligência, temos que concluir que nada os distingue dos seus adversários. Estamos conversados.

Será por reflexo condicionado de esquerda que poupam o PS? Por outras palavras, será que para o PC, o PS é ou já foi um partido de esquerda e que, assim sendo, é necessário defendê-lo, o que poderá ir até a determinadas circunstâncias e limites em que seja preciso engolir sapos?

Se não se trata de engolir sapos, então, por que razão se juntou o Partido Comunista Português no parlamento ao PSD e ao CDS em votações contra o governo socialista?

Última questão, se o PC acha bem que sejam convocadas eleições antecipadas, por que razão não teve a coragem de apresentar em devido tempo, e já lá vão alguns meses, uma moção de censura contra o governo socialista?


Assim, não se sabe onde é que isto vai parar, neste país completamente à rasca.

À rasca, os que estão no poleiro e que apenas estão preocupados com a sua porção de poder.

À rasca, os que não tendo poder, vão batalhando para ir sobrevivendo todos os dias, mas que não sabem o que fazer.

Muita dessa muita gente das gerações à rasca, que não figura nas listas de candidatos, não vai votar no 5 de Junho. A política não lhes vai bater à porta.

Outros vão votar no clube do costume. Estão conformados, estão condenados.

Estamos todos condenados. Bem-vindo FMI! Ouçam o José Mário Branco, está na altura.


quarta-feira, 30 de março de 2011

ELIZABETH TAYLOR









Penso, talvez a despropósito, no livro de Robert Brasillach “Comme le temps passe ». Publicou-o em 1937 e foi fuzilado em 6 de Fevereiro de 1945, por colaboracionismo com os nazis que ocuparam a França.


Era um grande escritor, sabia muito de cinema e admirava em particular o cinema japonês. Do tempo que foi o seu da sua vida deixou um rasto trágico, não apenas para ele.

O tempo passa, o tempo é como um tsunami, por onde passa pouco fica, pouco resta, mas por vezes alguém fica de pé para além desse movimento de tempo. Vai-se subindo a encosta, chega-se lá acima, desce-se e tudo recomeça. Camus, Le mythe de Sisyphe.


Mas, entretanto, passou o tempo tsunami.


Vamos acumulando memórias na nossa cabeça, vão-se acumulando memórias para a história e vão sobrevivendo rastos de algumas estrelas que iluminaram e que continuarão a iluminar a vida de muita gente por muitos e muitos tempos. Não estou a pensar nem em santos nem em deuses nem em mártires, nem em heróis. Existem catálogos inteiros disso, não tenho nada contra.


Estou a pensar em estrelas de verdade, estrelas que não exigem nada em troca, nem sacrifícios nem preces nem doações ou pagamento de bulas.

Estrelas de celulóide, reais, reais pela humanidade que nos revelaram. Mas essas estrelas em que estou a pensar têm também uma “dimensão religiosa”. Espero não me enganar, mas foi o Roland Barthes quem pela primeira vez utilizou essa expressão a propósito das stars de Holywood.

O que me leva a Elizabeth Taylor, a estrela mais luminosa e mais humana de todas as stars. Taylor não morreu, porque em vida criou a sua própria lenda. Taylor não é e nunca será uma estrela mártir como James Dean, nunca precisou nem vai precisar de liturgias de tipo religioso.

Taylor e Dean entraram ambos no Gigante de George Stevens. Foi o último filme de Dean, que alucinou definitivamente no seu porsche a alta velocidade e, por isso, não chegou a tempo de ver o filme. Filme grandiloquente, com algumas ideias que podiam ter sido fortes mas que se perdem em dilemas puramente formais, o dilema entre a tradição das grandes pradarias dos cow-boys e o novo maná americano chamado petróleo, o dilema entre racismo anti-mexicano e o paternalismo bien-pensant em relação aos pobres excluídos sem direitos.

Neste melting pot do Gigante é notório que apenas se salva Elizabeth Taylor.

Alguém poderá apontar um exemplo de qualquer outro filme que não tenha sido salvo por Taylor? Felizmente há exemplos disso. Penso em três filmes que não foram salvos apenas por Elizabeth Taylor, mas nenhum deles inclui Richard Burton, perdoem-me os fãs desse expoente típico do british actor de outros tempos. Na minha memória de cinéfilo ficam como os melhores filmes de Taylor aqueles que ela teve a oportunidade de partilhar com essa outra estrela extra-terrestre chamada Montgomery Clift: Um lugar ao Sol de Stevens (1951), A Árvore da Vida de Dmytryk (1957) e De repente no Verão passado de Mankiewicz(1959).



Não se trata de um pequeno legado.


Raramente o cinema conseguiu voar tão alto no seu esplendor de sétima arte e também tão próximo da proximidade aos sentimentos do ser humano.


Estes e outros filmes de Elizabeth Taylor resistirão a todos os tsunamis do tempo. E ela sobreviverá incólume no tempo indeterminado que lhe está reservado, aquele muito privilegiado tempo estelar que exclui supernovas.


terça-feira, 29 de março de 2011

NOVO REGIME, CLARO



Hoje, ouvi o Ricardo Salgado (Espírito Santo), que é o homem mais poderoso deste país, declarar a uma televisão estrangeira, em inglês língua de banqueiros, que a última vez que Portugal entrou em insolvência foi há muito tempo, foi em 1890.


Alguém lhe deve ter soprado isso ao ouvido, não acredito que o homem estivesse ao corrente, não me parece que tenha tempo para pormenores desses.


Mas, porque é banqueiro, o Salgado não quer que andem para aí a falar da dívida soberana e do endividamento externo de Portugal nem de falências e foi à tal televisão mandar o seu recado aos credores do grande e iníquo universo das finanças e dos mercados internacionais. Estava no seu papel, não o vou censurar por isso, além disso ele não mentiu.


1890 não é um ano assim tão distante, mas é um ano fatídico principalmente por causa da tal insolvência do Estado português e de todas as misérias que trouxe. É também o ano do ultimato inglês e da submissão de Portugal ao velho “aliado” e o ano do princípio do fim do regime monárquico.


É verdade que foram ainda precisos mais 20 anos para a República chegar a Portugal, mas a verdade é que nesse fatídico ano o velho regime dos reis de Portugal e dos Algarves chegou ao fim.


Foram comemorados há poucos meses os primeiros cem anos da dita república, cem anos, quarenta e oito dos quais pertencem a um regime que, embora continuasse oficialmente a ser republicano, não tinha nada a ver com os ideais das chamadas repúblicas laicas e modernas, sendo, pelo contrário, um regime ostensivamente e deliberadamente anti-moderno.


Um regime que se impôs e se incrustou na história do século XX por causa do problema crónico da insolvência do Estado português e que teve durante muitos e tristes anos à sua frente um homem providencial, que aparentemente percebia de finanças.


Em geral, a história não costuma repetir-se, mas muitas vezes ela assemelha-se à portuguesa pescadinha, de rabo na boca.


Ultimato inglês e insolvência em 1890, proclamação da república jacobina e lisboeta em 1910, segunda república fascista e católica em 1910, terceira república pós-colonial e europeísta em 1974, tudo isto aconteceu alternadamente em Portugal no espaço de 120 anos. Já é uma história longa, com muitos protagonistas e muitas cumplicidades entre elites quase sempre incompetentes e/ou corruptas, povo e ou/eleitor cansado e/ou distraído, ignorante e/ou incompetente. Assinalem com uma cruz.


Olhando o que se está a passar agora neste ano da (des)graça de 2011, é natural o rapprochement, o que é provável é que os episódios da histórica alternância política deste último século e um quarto se vão continuar a reproduzir no presente e no futuro, não necessariamente pela mesma ordem.


Certo e seguro é que, para já, o espectro do défice e da insolvência está bem vivo no imaginário e nas preocupações colectivas de um país à beira de um ataque de nervos.


Única consolação nestes tempos quase esquizofrénicos, é que, tenhamos medo ou não de fantasmas, enquanto o pau vai e vem folgam as costas.


Mas, com fantasmas ou sem eles, não escapamos a ser confrontados com aquela que é a única e verdadeiramente séria questão política da nossa actualidade: qual é e quando será o próximo regime?

quinta-feira, 24 de março de 2011

COMPROMISSO HISTÓRICO

Voltámos aos telejornais e às primeiras páginas desse mundo enorme que nos rodeia.

Portugal, o país mais pobre da Europa foi esse o tom das notícias, dos comentários, das entrevistas. Mais pobres ainda do que a Grécia e a Irlanda, humilhação.
O sr. Sócrates deve estar orgulhoso, chegou ao zénite da sua carreira, teve em Bruxelas uma merecida recepção emocionada dos seus ex-pares. Bon voyage!

A campanha eleitoral promete, o PSD já faz promessas não mexe nas pensões de reforma, mas aumenta o IVA. O PS retorque, nós é que tínhamos razão. Perante a ameaça iminente de desemprego dos seus belos tachos, os boys já se activam na oposição.

Uma camarilha igual a si própria, nada parece mudar, essa gente não tem emenda. Algumas coisas, alguém, nós próprios nos podem valer? Ou, será que quem tem razão é o Pulido Valente e o seu pessimismo constipated?

Estamos a chegar a Abril, coincidência, haverá outro Abril?

A situação actual é parecida, mas não é igual à situação de há 37 anos. As coisas têm vindo a acontecer desde há muito tempo, pouca gente minimamente honesta e informada tem ligado aos óbvios sinais. Sinais de problemas graves, de decadência do país que têm passado quase em silêncio.


Na Argentina, houve um tipo chamado Carlos Menem, foi presidente da República, a dita república faliu. A república argentina estava alinhada pelo dólar mas isso não a impediu de falir, antes pelo contrário. Quem sofreu as consequências? Os mesmos do costume, claro, o capitalismo flutua sempre.


Há dois anos, muitos alarves que têm mandado neste país, inebriados na sua euforia pan-europeia, afirmavam arrogantes que Portugal não podia falir, é que Portugal estava no euro. O dólar não valeu de nada aos argentinos, antes pelo contrário, de que é que nos vai valer o euro? Para comprar uma coroa de flores?


Estamos apanhados no meio de uma guerra global, a guerra dos câmbios, e não somos apenas o terceiro elo mais fraco do euro. A situação actual em que estamos entalados é muito mais complicada do que isso, é que temos a enormíssima responsabilidade de defender o quarto elo mais fraco do euro que, segundo a comunicação social internacional é, imaginem, a Espanha, antiga potência imperial na Europa e além-mar. Mas isso já é sabido há muito tempo. Para que tem servido, então, ter um governo e um presidente da República?


Em 1983, batemos à porta do FMI, foi na época em que o Dr. Soares ainda não tinha aprendido a distinguir entre quatrocentos mil e quatro milhões de dólares. Na sua cabeça, a diferença era pequena.


Hoje, o sr. Juncker, ou lá com é que ele se chama, admitiu com conspícuo sorriso, que Portugal ia precisar de uma ajuda de 70 mil milhões de euros. O homem manda nas finanças da EU, preside ao eurogrupo. Deve saber do que está a falar. Ou talvez não, é que estes tipos das finanças fazem-me sempre pensar naqueles serviços de polícia que vão acumulando imensas informações sobre estes e aqueles que julgam mais ou menos perigosos e que, quando as coisas começam a aquecer, não conseguem perceber nada do que está a acontecer.


O Sócrates vai-se embora, bon voyage, o PS vai fazer a sua merecida cura de oposição. Já chega, descansem, não chateiem mais, era bom que também levassem convosco o Cavaco.

Baralhemos, então, para dar de novo as cartas. Cartas novas, entenda-se, sem trafulhices.


Pensemos num programa mínimo, quero dizer máximo, neste momento do que precisamos é saber como agir para restituir dignidade a este país.


Entre os partidos políticos que temos, de direita ou de esquerda, existe gente competente, gente séria. Terão poder para mudar alguma coisa, poderão trabalhar em conjunto, apesar das suas respeitáveis diferenças?


Em Abril de 74, tivemos uma revolução contra um regime anacrónico.


Trinta e sete anos depois, o desafio é mais difícil, porque tem que se lutar, num contexto internacional totalmente adverso, por um país com futuro e com dignidade, um país livre, soberano e solidário.


Comecemos por concordar num compromisso histórico entre cidadãos quaisquer que sejam as suas opiniões ou preferências. Um compromisso solidário para preservar um espaço onde se possa viver em liberdade sem senhores vindos de outras partes. Liberdade, igualdade, fraternidade, é isso, voltamos sempre ao mesmo.