PEDALAR É PRECISO!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ÓDIO AOS POBRES


O Banco Mundial vai fabricando estatísticas, isso está no seu pedigree, há muito que estamos habituados às suas falsificações, manipulações e outras propagandas criminosas. O Banco Mundial é um bando de salafrários, fazem circular as estatísticas que lhes convêm.


O Banco Mundial é o parceiro fraterno do FMI.


Para quem não sabe, compete ao Banco Mundial, de acordo com a divisão e tarefas que as potências do grande capital mundial fixaram já há bastante tempo, tratar em especial do chamado Terceiro Mundo.


Este conceito de terceiro mundo foi inventado por alguém cuja memória muito prezo. Alfred Sauvy, conheci-o, andava de bicicleta em Paris, com a sua boina, sempre optimista e crítico, para mim o Sauvy era uma espécie de Einstein.


Grande impulsionador dos estudos demográficos, economista, espírito aberto, crítico e super lúcido, nos tempos da guerra fria, inventou essa história do terceiro mundo, ou seja, tínhamos o primeiro mundo, o capitalista propriamente dito e, do outro lado, o mundo do socialismo real, estalinista. Logicamente, o terceiro era o mundo dos completamente deserdados, o mundo daqueles que estavam naturalmente destinados a ser as presas fáceis da guerra entre os dois primeiros mundos.


Sauvy, aliás, confessou que na sua ideia, o mundo capitalista poderia ser assimilado à nobreza e o mundo comunista ao clero. O Terceiro Mundo, claro, seria o Terceiro Estado, aquele que, em França, fez a Grande Revolução.


Infelizmente, até hoje, o tal terceiro mundo não fez revolução nenhuma, antes pelo contrário. O Sauvy enganou-se, é pena.


As ex-colónias portuguesas, por exemplo, são um exemplo flagrante do que é ser apanhado no meio da guerra entre os dois mundos e não ter alternativa a não ser submeter-se a um dos contendores. Angola, por exemplo, amargou com a disputa entre USA e URSS, trinta anos de guerra civil, milhares e milhares de mortos e de estropiados.


O terceiro Mundo, a sua vocação tem sido sempre a de ser um mundo de vítimas e continua a liderar o ranking dos mais pobres.


Essa expressão terceiro mundo hoje já não se usa, usam-se outras, países em desenvolvimento, países menos desenvolvidos, é disso que falam as estatísticas oficiais das Nações Unidas.


Mas voltemos ao tal de Banco Mundial.


Periodicamente esta melíflua e subserviente instituição do capital internacional apresenta os seus relatórios. Relatórios supostamente sobre a situação mundial, sobre as economias mais difíceis. Mas o que Banco Mundial invariavelmente nos diz é que, graças ao seu empenhamento, à sua intervenção e aos seus programas, os países muito pobres se vão tornando menos pobres e, assim sendo e graças à sua desinteressada militância, o número de pobres vai diminuindo.


Assim, em 2008, o dito banco veio-nos anunciar que o número de pessoas que vivem abaixo do limiar de extrema pobreza no mundo reduziu-se, entre 1981 e 2005, de 1,9 para 1,4 mil milhões. Quaisquer que sejam os números, a verdade é que são muitos e muito demasiado pobres, cujo limiar de extrema pobreza é fixado em 1,25 dólares americanos por dia e por habitante (como é que se consegue viver com um 1 euro por dia?).


E o tal de Banco Mundial exulta: durante todo esse tempo, pouco mais de vinte anos, a população mundial aumentou e, assim de repente, por artes mágicas, a taxa de pobreza extrema foi reduzida para metade : terá passado de 52 para 26 % da população mundial!


Consulto outras fontes, outros dados também relativos a 2008. Pequeno pormenor a ter em conta neste exercício contabilístico: 2008 é o equivalente ao ano de 1929, é o ano do crash de Wall Street sorteado para o 2º milénio da era cristã. É o ano do nosso crash, aquele que está em curso e que ainda não sabemos como é que vai acabar.


Ora, segundo as Nações Unidas, nesse fatídico ano, haveria nessa altura perto de três mil milhões de homens e de mulheres a viver com menos de 2 dólares por dia, grosso modo, isso quer dizer cerca de cinquenta por cento da população mundial.


Questões inexoravelmente pertinentes que vêm a propósito: qual a diferença entre 1,25 e 2 dólares, qual a diferença entre 50% e 26% de pobres? Ò banco dito Mundial, explica-nos lá estes pormenores?


No ano de 2008, antes do crash, cerca de 8 milhões de crianças morriam de pobreza e 150 milhões de crianças com menos de 5 anos sofriam de má nutrição. Perto de 100 milhões viviam na rua entregues a si próprias, muitas vasculhando provavelmente nos caixotes do lixo ou nas lixeiras, como na Cisjordânia, por exemplo.


Segundo Kofi Annan, que na altura era o secretário-geral da ONU, seriam necessários cerca de 40 mil milhões de dólares por ano para garantir ao exército dos pobres deste mundo o acesso aos serviços sociais de base, tais como, instrução, saúde, alimentação, água e salubridade.


40 mil milhões é um orçamento inferior ao que os europeus gastam em cigarros – não tenho nada contra os cigarros – e, principalmente, é três vezes menos do que aquilo que gastam os países não-industrializados - ressalvemos, que estes países não são os únicos onde há pobres a tentar sobreviver com 1,25 dólares - em despesas militares, Armas, my God, precisam de armas para quê? Para matar os mosquitos?


Temos o corno de África, a Somália, a Etiópia, temos o Afeganistão, temos a Síria, temos o Conselho de Segurança da ONU, temos a corte dos especialistas que se ocupam do exército mundial de pobres, o exército de reserva de mão-de- obra de que falava o Marx. Mão-de-obra pronta para servir o capital internacional, precisam de emprego, precisam de salários.


Temos também o exército mundial dos que lutam por manter o seu emprego, o exército dos que vão sobrevivendo até chegar a vez de, eles próprios, irem vasculhar nos caixotes do lixo ou tratarem de reunir a trouxa e porem-se a caminho.


Crazy world.


A história disto a que chamamos humanidade é uma história de ódio aos pobres.
E daqui não vamos sair.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

SINGAPURA À VISTA



A regra não mudou e provavelmente nunca mudará, cada um de nós tem uma margem de liberdade muito limitada. Dependemos da lógica dos Estados e dos interesses que os dominam, não podemos fazer nada, não temos poder.


As nossas vidas, nós os que estamos aqui agora, nós os que já cá estiveram, nós os que vão vir ou que vão nascer, todos nós somos, fomos e seremos manipulados em nome dos superiores interesses dos Estados.


À manipulação de interesses que determinam as relações de força entre Estados é costume chamar-se ordem internacional.


Nesta matéria, o problema principal que vivemos hoje é que não existe propriamente uma ordem internacional.


Vivemos num período de transição e de incertezas entre a velha ordem baseada no equilíbrio do terror, aquele equilíbrio que existia até à queda do muro de Berlim entre duas superpotências.


Dum lado, a “cortina de ferro” da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, do outro, o “mundo livre”, o mundo dos pintainhos dormitando sob as asas da mãe América e da Nato.


Vivemos agora, desde há alguns anos e não há sinais de melhoria, numa transição entre qualquer coisa que já não existe e outra que muito provavelmente vai ser muito pior.


Os sinais desse admirável mundo novo estão à vista, precisamos de nos esforçar em perceber o que é que aí vem.


A América está falida, a América perdeu o controle de si própria, nas antigas pradarias das guerras entre brancos e peles-vermelhas prepara-se uma guerra social tremenda, uma guerra que não será apenas entre americanos.


Sejamos optimistas, dessa guerra, sabe-se lá, podem resultar coisas boas. Mas uma guerra é sempre uma guerra e haverá forçosamente muitas perdas. Talvez se avance para a profecia de Marx. E, das ruínas do capitalismo avançado, talvez possa nascer uma nova sociedade sem exploradores nem explorados. Adelante.


Quanto à Europa, a chamada união europeia é uma ficção, está perdida, não tem poder, não tem influência, a Europa auto-devora-se numa espécie de guerra civil conduzida pelos especuladores do capitalismo financeiro do norte contra os países do sul.


Os mercados é quem mais ordenha, os mercados sabem.


O Obama assinou o acordo com o Tea Party e Wall Street terminou a sessão em forte baixa. O mesmo aconteceu com todas as praças europeias.


O Sarkozy convocou uma reunião extraordinária do parlamento francês para princípios de Setembro, por causa da “crise grega”, leia-se a crise do euro.


O Zapatero, coitado, teve que anular as suas férias, os juros da dívida soberana espanhola voaram.


O Berlusconi convocou uma reunião de emergência dos seus peritos financeiros, não sei se anulou as férias, em todo o caso, ele tem sempre o ar de quem está de férias.


Os chineses assistem a tudo isto, riem-se discretamente, mas não é um sorriso amarelo. É um sorriso que não disfarça o seu contentamento, principalmente por causa das cenas do Capitólio americano entre democratas e republicanos.


O russo Putin, com o seu ar de superman falhado, acusa a América e os americanos de viverem à custa da economia mundial.


O franco suíço chega praticamente à paridade com o euro, o euro começou a sua descida aos infernos.


Parece que voltámos a 1939.


Onde está aquele ponto fixo e credível que nos diz onde é que estão a ordem internacional e os lugares e as relações entre Estados, economias e mercados? Quem não sabe o que fazer e tem bastante dinheiro de lado, volta-se para um país neutral, volta-se para a neutralidade suíça, compram francos suíços.


Os suíços ficam preocupados, os europeus levam as mãos à cabeça, não sabem o que fazer.


Querem melhor sinal da nova desordem internacional e de tudo o que se avizinha?
Por enquanto, ainda temos a Suíça.


Não faltará muito, os “nossos” capitalistas viajarão com as suas poupanças para Singapura. Sempre estarão mais próximos da China. Nunca se sabe!



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

TEA PARTY E O QUE SE SEGUE



No último momento, como num filme de suspense, os políticos americanos chegaram a acordo sobre a questão do tecto da dívida.


Um acordo entre gente sem escrúpulos, entre políticos.


Por maiores tretas e justificações de circunstância que se possam inventar, infelizmente, a actividade política nos tempos que correm tem cada vez mais a ver com a ópera do malandro. Façam uma coisa ou optem pelo seu contrário, os políticos pensam antes de mais nos interesses da sua carreira, nas próximas eleições e por aí adiante.


O povo, os mais fracos, os interesses colectivos, tudo isso fica para o blá blá das eleições e do marketing. E o povo, ocupado com as tarefas da sobrevivência, deixa passar, o povo agradece.


O Obama assinou um acordo em que capitulou em toda a linha perante os republicanos do Tea Party, que é uma seita fundamentalista cristã neo-liberal capaz das piores infâmias em nome da sua fé de povo e raça branca cristã superior. A história e o futuro compararão esse bando de malfeitores com os esclavagistas do tempo da guerra civil, com os supremacistas terroristas brancos da estirpe do Timothy Mc Veigh ou do norueguês cujo nome me recuso a pronunciar.


Na minha opinião, esses praticantes de encontros de chá são terroristas filiados numa velha genealogia, que se tem reproduzido ao longo do tempo, Hitler, Mussolini, Bin Laden. Essa gente, que é suposto ser amante de chá, na realidade ama apenas os seus privilégios e odeia a humanidade, principalmente os pobres e aqueles cujas cor de pele ou maneira de vestir são diferentes. Pensam exclusivamente nos seus privilégios e entendem que os pobres o melhor que têm a fazer é tornarem-se ricos. Se não o conseguirem, they must die.


O Tea party venceu o Obama, obrigou-o a assinar um acordo que destrói todos os nobres objectivos que o presidente negro americano assumiu desde que se tornou President of the United States, título que lá por aquele lado do Atlântico é considerado como o supra-sumo da democracia e do sonho americanos.


Essa capitulação foi confirmada pelo New York Times, segundo o qual, para evitar o caos, Obama assinou “um acordo terrível”, que representa uma vitória total do Tea Party. É “uma capitulação total às pressões mais extremistas dos republicanos”, que destruirá “os programas para a classe média e os pobres e travará a retoma económica”.


Obama foi vencido. O Obama não é Abraham Lincoln, that’s a pity.


A questão é que tudo o que acontece nos USA, por enquanto, tem repercussões imediatas no resto do mundo.


Pensemos, então nas consequências globais da submissão do Obama aos fundamentalistas supremacistas neo-liberais cristãos brancos do Tea Party.


O mundo e o que resta da democracia caminham inexoravelmente para o caos, caos inevitável, ajustes de contas entre fundamentalistas de todas as tendências de um lado e de outro.


Ambiente de guerra, e as usual, não haverá vencedores, apenas vencidos e loucos à solta, muita desgraça e miséria. Estarei a exagerar na dramatização?


Infelizmente, não vejo razões para alimentar dúvidas razoáveis. O mundo é um lugar cada vez mais perigoso, em transição para o caos e o triunfo do irracional e das seitas emergentes.


Terminemos este dia preocupante com um pensamento muito preocupado para com os mártires da Síria e a indiferença das “democracias”.


Mundo global, caos anunciado, só más notícias.




terça-feira, 26 de julho de 2011

NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?


A Moody’s baixou o rating da Grécia para o limiar absolutamente mínimo, abaixo do qual se deixa de estar no lixo e se entra na falência. Decreto de morte para a Grécia.


Isto acontece uma semana depois de as instâncias que mandam na união europeia terem acordado conceder à Grécia um empréstimo de quase cento e sessenta mil milhões de euros.


Vale a pena tirar daqui algumas consequências.


O capitalismo financeiro internacional chegou a um limite de total abjecção. Abjecção que nos cerca e nos quer destruir.


Com o poder absoluto que conseguiu conquistar, este supremo estádio do capitalismo digno do tribunal de Nuremberga, passou a usufruir da suprema e criminosa legitimidade que lhe permite decretar o genocídio eugenista de todos quantos considera serem incumpridores das regras neo-liberais que estão inscritas em letras de ouro na sua cartilha. A fase da absoluta hegemonia da moeda, do dinheiro, da especulação e do lucro.


O capitalismo que temos hoje passou à fase 1984 do Orwell, aquela fase que o Orwell tinha atribuído ao poder estalinista soviético e que é a do poder inteiramente discricionário, autocrático e obscuro que controla tudo e todos.


O próprio presidente dos USA está neste momento na mira do fogo das agências que servem o poder obscuro da ditadura do capital financeiro, o homem foi ameaçado pelas agências de rating.


Tudo o que vem acontecendo desde há três anos aponta para um novo espectro que ameaça muitos países, principalmente, os países europeus que foram inscritos na lista de futuros países prontos para a bancarrota.


É esse espectro que agora decide sobre os nossos salários, sobre o nossos direitos, que nos retira os subsídios de desemprego, o abono de família, que decide quantas freguesias e concelhos e que é podemos ter, que decide quem é que pode mandar os filhos à escola, que decide quem é que tem direito a um hospital ou a um médico, que decide quanto é que vamos pagar para andar de metro, de comboio ou de autocarro, que decide o que é que podemos ver na televisão ou ler nos jornais.


É um espectro, são deuses desconhecidos cujo poder omnisciente decide quem vai viver e quem vai morrer.


Esse poder omnisciente acaba de decretar, pela voz dos lacaios das agências de rating, quantos gregos deverão ser sacrificados, decidiu que a Grécia não tem futuro.


Em breve, esse decreto poderá alargar-se às vítimas que estão na lista dos futuros insolventes, Portugal, Irlanda, Itália, Espanha, Bélgica, Irlanda, Estados Unidos…


Alguém anda a conspirar, alguém anda a empurrar tudo isto para uma nova guerra de grandes proporções e não me parece que seja aquele louco assassino da Noruega.


Serão loucos, serão assassinos, mas têm outros meios.


O que é que nós vamos fazer quando esses gajos nos atirarem para o último dos últimos níveis, abaixo do qual somos declarados falidos?


Pagamos impostos, trabalhamos, não causamos distúrbios, respeitamos os direitos deste e daquele. Nem sequer manifestamos na rua.


Somos brancos, somos pretos, indianos, cristãos, muçulmanos, europeus, africanos, homens ou mulheres, crianças ou adolescentes, gays or not, trabalhamos, quando temos emprego.


Levamos os filhos à escola, à creche quando ela existe, pagamos bilhetes no autocarro, compramos o passe, pagamos as contas no supermercado, não andamos a roubar nem a matar e, então, como é que vêm estes gajos que ninguém conhece, que ninguém sabe donde é que vêm, nem quem é que os elegeu, como é que vêm esses gajos mandar na nossa vida, como é que eles nos vêm punir, castigar, reduzir-nos à miséria?


Será apenas porque resolvemos entrar para a CEE e para o euro?


A Grécia é atirada para o limiar da bancarrota pela Moody’s.


Concentremo-nos nessa gente. Quem são, quem é que os controla, o que é que os banqueiros e os capitalistas da nossa praça ganham com eles. Por alguma razão lhes pagam, devem ter algum interesse nas cabalas em que esses gajos andam envolvidos.


Há por aí cumplicidades criminosas.


De que é que serviu a cimeira europeia?
Não resolveu o problema dos gregos, é o que parece.


Deu-nos a ilusão de que talvez a crise tenha solução, de que talvez não sejamos empurrados para um lugar escuro no centro da terra sem luz e sem oxigénio.


A questão é que nós portugueses, nós gregos, irlandeses, espanhóis, italianos, nós soi disant europeus, nós não decidimos nada, não controlamos nada, estamos apenas a correr atrás do prejuízo e não fazemos ideia sobre o que é que vai acontecer amanhã.
A Europa! A união europeia é uma perigosa e redundante utopia, a união europeia é um laboratório de criminosas experiências.


Larguemos a Europa e concentremo-nos em objectivos mais realistas e inteligentes.


Sejamos anti-capitalistas e anti-moody’s.


Não se poderá exterminá-los?
Era a pergunta do dramaturgo alemão Karl Valentin nos anos da grande depressão, pouco tempo antes do Hiler subir ao poder.

Olhemos para o Atlântico, somos atlânticos, não somos europeus. Somos mestiços com a África e o Brasil.



Façamos uma comunidade com os nossos irmãos atlânticos do sul, sem agências de rating. Uma comunidade de democracias, de povos inventivos, livres, solidários e livres. De gente com laços fortes entre si, de gente tolerante.


A Europa tornou-se um cemitério, um espaço de morte e de desgraças. Quais federalismos, qual o quê. Deutschland über alles?


Salvemo-nos enquanto é tempo!


quinta-feira, 21 de julho de 2011

VANTAGENS APARENTES DO PÂNICO EUROPEU



Ainda é cedo para se perceber exactamente o que é que foi decidido hoje em Bruxelas na cimeira da última chance, chamem-lhe o que quiserem.

Parece que a dita cimeira centrou a sua atenção exclusivamente na situação explosiva da Grécia, não se terá falado nem de Portugal nem da Irlanda.
Na realidade, nunca saberemos o que é que lá se passou e, mesmo que alguma vez se saiba, isso não vai servir para nada.

O aparente acordo conseguido hoje em Bruxelas pode ser explicável pelo medo do contágio da crise da dívida soberana à Itália e à Espanha. Esse pânico terá tido algum efeito, porque o pessoal que manda nessa coisa chamada moeda única é gente muito macha mas a certa altura, quando as coisas aquecem a sério, perdem os pedais, lá se vai a coragem. O medo é bom conselheiro.

Deduz-se deste aparente acordo que, da parte alemã, prevaleceu a táctica dois passos atrás um passo à frente e, a seguir, logo se verá.

Ainda na véspera, a Dona Merkel tinha-se dado ao trabalho de nos avisar, não esperem nada de espectacular da cimeira, não vamos resolver nada. Era uma ameaça.

Mas parece que as linhas em que corre o comboio da ditadura financeira alemã foram desviadas para uma espécie de impasse, e nessa emergência, a estratégia de Berlim do quanto pior melhor foi confrontada com o dilema do general quando, na véspera da batalha, se prepara para atacar e percebe que afinal está em desvantagem, e decide levantar o acampamento, mandar os soldados para outra parte e esconder as armas e os canhões.

Terá, pois, havido recuo táctico, a Alemanha não cedeu completamente na cimeira, mas cedeu e no fim parece que toda a gente acabou por sair satisfeita.

Os gregos vão receber uma ajuda de 158 mil milhões de euros durante trinta anos. Mas implicitamente, e a bolsa de Londres encarregou-se de o confirmar, ficou estabelecido que os compadres do Peleponeso estão tecnicamente falidos.

Têm trinta anos para pagar, trinta anos, coitadas das crianças gregas! Mas, os juros, valha-lhes isso, desceram para 3,5%. É uma renegociação da dívida, não há volta a dar.

A Alemanha também levou a dela avante porque, neste segundo plano de salvação da Grécia, os bancos e outros credores privados vão ser obrigados a contribuições substanciais.

A grande e poderosa matilha dos negociantes e engenheiros financeiros especulativos e criminosos vai ter que desembolsar cerca de 135 mil milhões de euros a pagar pelos gregos em 30 anos. Esse pessoal da finança alemã vai ter que dizer adeus a uma parte substancial dos créditos e dos lucros com que andavam a salivar. Vão ter que amargar, perdem hoje, mas recuperam amanhã, não tenham pena deles.

O Sarkosy apareceu no seu papel de que gosta mais, o papel de salvador in extremis, naturalmente pareceu o mais satisfeito deles todos. Sabe-se que o homem é de baixa estatura, que usa saltos altos e, talvez por isso, gosta de se pôr em bicos dos pés.

Do alto da sua importância de presidente francês, que não sei bem qual é, little Sarkosy anunciou que a ajuda da união europeia à Grécia será de 54 mil milhões de euros em três anos (de hoje a 2014).

Anunciou também que vão ser apresentadas pela união europeia antes do fim do Verão, propostas para melhorar a governança da zona euro. E acrescentou – ele e a Merkel é que são os patrões, pelo menos, é isso que ele acredita - : a chanceler Ângela e eu próprio concordámos que era preciso avançar com muita ambição e voluntarismo nas próximas semanas para um novo modelo de governança económica da zona euro.

Mais palavra, menos palavra, foi isso o que o homem disse, explicou que a nossa (deles, casal franco-alemão) ambição é aproveitar a crise grega para fazer um salto qualitativo na governança da zona euro.

Federalismo, moeda única, ditadura única, preparemo-nos!

Saudades dos Filipes espanhóis!

Outros personagens desta tragi-comédia em que se brincam com milhares de milhões, também se mostraram muito satisfeitos.


O Trichet do Banco Central Europeu, que, antes da cimeira, era contra a participação dos privados, saudou a solução encontrada para ajudar a Grécia.


O FMI e a sua nova dirigente, a Christine Lagarde, que Deus a guarde, anunciou que também vai participar no novo plano de ajuda à Grécia.


A banca subiu na bolsa.


Os transportes vão aumentar 15%.


Novas medidas de austeridade estão anunciadas, não se sabe bem quais nem exactamente para quando, mas é questão de semanas, antes do fim do Verão, a limpeza estará completa.


As decisões da cimeira da troika europeia de hoje, 21 de Julho do ano da desgraça de 2011, talvez fiquem na história. Quem sou eu para fazer juízos pré-históricos.


Porém, no imediato, não vejo o que é que tudo isso vai mudar aqui para estes lados do Atlântico ocidental periférico europeu.


Talvez esteja muito simplesmente a ver um daqueles filmes americanos de ficção com muitos efeitos especiais numa galáxia distante, com extra-terrestres que se divertem, que decidem isto e aquilo, faço zapping, olho à volta e continua tudo na mesma.


Talvez consigamos sobreviver. Alá é grande!


Valham-nos a metafísica e as transcendências das longas durações. Daqui a cinquenta anos, tudo isto será muito mais claro. Tarde demais.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

A SUL, NADA DE NOVO


Está marcada para quinta-feira, 21 de Julho, uma cimeira extraordinária dos responsáveis dos governos da união europeia.


O simpático presidente belga da união europeia tinha anunciado esta reunião para a passada 6ª feira, mas a chanceler Merkel prontamente mandou desmarcar. Quem manda, manda.


Não é difícil imaginar o que vão ser os resultados da dita cimeira.
Eles estão anunciados há muito tempo.


A união entre aspas europeia está sob a alçada da hegemonia germânica, nem toda a gente sabe ou aceita isso, mas essa é a realidade, haverá volta a dar? Há, há, mas quem é que toma a iniciativa? A Grécia, a Irlanda, Portugal, a Itália, a Espanha, cada um por si, ou todos juntos? E quem é que toma a iniciativa, os governos colaboracionistas ou os povos inconformistas e indignados?


O puzzle de tudo o que está acontecer neste ano da desgraça de 2011 é muito complexo, nem tudo é preto, nem tudo é branco. Há sintomas de que dentro da própria Alemanha muita coisa está em aberto. A conspiração do capital alemão de tendências imperialistas tem adversários internos.


Helmut Kohl não é um político qualquer, é um personagem histórico cuja visão e coragem deixaram merecida marca. Na história da Alemanha pós-nazi ninguém foi tão longe quanto ele na aproximação a uma Europa próspera e de paz.


Recebeu da união europeia o apoio à sua vontade de reunificar a Alemanha. A Alemanha foi reunificada pela sua vontade, mas sem esse apoio europeu a reunificação teria sido um completo fiasco.


Talvez porque quisesse demonstrar as boas razões da sua insistência em integrar a antiga Alemanha estalinista na Alemanha e na Europa, Kohl promoveu Angela Merkel e fez dela chanceler.


Parece que ontem deu sinais de estar arrependido, mas a questão não é essa.


Eu acredito que na Alemanha existe uma fractura entre aquilo que é o tradicional sector perigosamente fascista da Deustschland über alles e o sector mais identificado e mais preocupado com os valores de uma Europa de paz e de valores universais e de fraternidade e de solidariedade. Mas não sou alemão nem vivo na Alemanha, limito-me a ver os sinais que de lá chegam.


A aparente dissociação do Kohl em relação à sua protegida Merkel é um sinal significativo da fractura inter-germânica que poderá trazer eventuais repercussões positivas sobre a crise europeia e o futuro da Europa.


Gostava de saber o que é que o Joschka Fischer, antigo ministro dos estrangeiros e vice-chanceler do Gerhard Schroder pensa sobre tudo isto. Mas alguém terá criado um manto de silêncio à sua volta ou então, não sei. Fischer sempre foi um genuíno defensor duma Europa solidária, sem hegemonias e sem patrões.


Os nossos jornais deviam dar mais atenção às vozes discordantes dentro do mundo germânico. Talvez seja por preguiça que não o fazem, o pessoal entra às 10, sai às 5, não está para se chatear, fecha o jornal, vai para casa.


Li, entretanto, uma notícia da Lusa, ora aí está, as agências continuam a ter a utilidade de disfarçar a preguiça e incompetência dos jornais, alguém da agência se deu ao trabalho de ler uma entrevista de um responsável alemão do misterioso Fundo Europeu de Estabilização Europeia (FEEF), fundo sobre o qual muito se tem escrito, mas não o suficiente para se perceber para que é que essa coisa vai servir, até agora não serviu para nada.


Em entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, o presidente do FEEF afirmou preto no branco que “Até hoje, só houve ganhos para os alemães, porque recebemos (eles, alemães) juros acima dos refinanciamentos que fizemos e a diferença reverte a favor do orçamento alemão.”


O que este senhor afirmou não é novidade, o que é novidade é que um importante jornal alemão resolva dar voz a um distinto responsável alemão por um fundo europeu, fundo que é suposto prestar socorro aos países periféricos europeus atirados para o caixote do lixo pelas agências de rating, as quais são manipuladas pelos banqueiros alemães. É novidade assinalável que este distinto responsável alemão e europeu tenha a coragem de vir dizer aos alemães, vocês estão a fazer enormes lucros com a crise do euro periférico dos países atirados às feras.


Alguém da Deutscland über alles terá lido com atenção estas palavras do distinto compatriota?


Já aqui foi explicado que, sobre o euro e a união europeia, paira um clima de guerra.


Como em todas guerras, tem que se considerar que existem duas frentes.


A frente invasora está bem organizada, é o exército comandado pelo capitalismo alemão, com os seus funcionários políticos chefiados pela chanceler Merkel, com os seus aliados nórdicos, holandeses, finlandeses, dinamarqueses, suecos, noruegueses.
Estamos perante uma espécie de remake da guerra de secessão americana, norte contra sul.


Só que, a sul, não há chefes, não há estratégia, não há exército. Os políticos desta frente, limitam-se afirmar todos os dias Portugal não é a Grécia, a Espanha não é Portugal, a Itália nem é a Grécia, nem é Portugal, nem é a Espanha.


A França também começa a dizer que não é nenhum desses países, talvez por causa do seu irreprimível fascínio pelo presidente Obama, que há poucos dias veio solenemente garantir que os USA não eram nem a Grécia nem Portugal.


O problema do sul da Europa não é apenas o de não ter aliados dentro da dita “união” europeia.


O problema meridional é ter os políticos que tem.
Políticos sem qualquer peso, sem qualquer estratégia, sem qualquer poder de influência.
Políticos ridículos e amadores. E vou deixar de fora os corruptos.


Gostava de perceber se o doutor Cavaco anda a ouvir vozes, como a Joana d’Arc. Será que Deus lhe segredou ao ouvido que a solução da crise europeia é simples, basta desvalorizar o euro?


Doutor Cavaco, acha que a Alemanha vai aceitar uma moeda mais fraca do que o dólar? A Alemanha está a ganhar todo o dinheiro que lhe apetece, graças, entre outras coisas, ao euro que têm, o euro que é deles.


Desse poder não vão abdicar na próxima reunião de emergência de quinta-feira. Obviamente não vão desvalorizar a moeda dita “única”, nem vão prescindir da sua exigência de meterem os privados no rateio das dívidas soberanas dos países do sul da Europa, todos, incluindo a França.


Doutor Cavaco, recolha-se à sua insignificância e inutilidade. É triste, mas a sua capacidade para representar um país, que está a ser espoliado pelas maquinações dos poderes financeiros que mandam na Europa, não vai além de dar palpites parvos e patéticos para aparecer nos telejornais.


A sul, nada de novo.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

PRIVATIZAÇÕES, IMPOSTOS E LIBERALISMO


A notícia do dia de hoje, 14 juillet, dia da tomada da Bastilha, foi a conferência de imprensa do novo ministro das finanças.

Devo admitir que, no seu papel de ministro plenipotenciário mandatado pela troika, o homem esteve bem. Diria mais, comparado com os seus antecessores e o que nos resta da memória de todos eles, este novo ministro faz parecer esses esquecidos personagens como uma espécie de merceeiros no fazer as contas e no raciocinar, sem desprimor para os ditos merceeiros, gente laboriosa e muito útil.


O ministro inaugurou um novo estilo, é pausado, pesa bem as palavras, é arguto, é prudente, transmite confiança e seriedade. Para ministro das finanças neo-liberal dum país à beira da bancarrota, what else?


Mas, não fiquemos pelo estilo e perguntemos onde é que está a coerência política entre este ministro e o seu discurso neo-liberal?


Nos USA há neste momento uma guerra política que opõe duas Américas, a democrata ou de esquerda e a republicana ou de direita.


Esta guerra faz-me pensar numa outra que também opôs republicanos e democratas americanos, foi na grande depressão do final dos anos 20, princípio dos anos 30.


Houve o crash de Wall Street, houve os quilómetros de pessoas na fila por um prato de sopa, foi a grande depressão. O presidente republicano Hoover, em nome da ortodoxia liberal fundadora dos USA recusou-se a intervir, ao Estado o que é do Estado, aos privados a livre iniciativa e os mercados. E o país afundou-se.


Veio felizmente o democrata Roosevelt com o New Deal, um ambicioso programa político de intervenção social e económico que salvou a América da recessão. A América e não só, porque já nessa altura, as recessões num país rico podiam provocar recessões em cadeia.


Quando agora vejo o Obama na televisão rodeado pelos chacais republicanos neo-liberais que apenas juram pela livre iniciativa, pelos mercados e contra os impostos não penso apenas nas consequências que essa guerra poderá ter em relação às economias fora da América e principalmente as dos países mais vulneráveis, entre os quais está Portugal.


Penso no Herbert Hoover e nas responsabilidades que o fundamentalismo liberal teve na grande recessão de há oitenta anos. Penso também nas contradições do neo-liberal Vítor Gaspar e do governo do qual é a peça-chave.


O homem é um adversário de respeito e quem não reconhecer isso arrisca-se a muito más surpresas.


É forte e isso ficou à vista na conferência de imprensa. Que eu saiba, nenhum jornalista o colocou perante a contradição básica, e no entanto ela salta aos olhos, a contradição inerente à sua prática de ministro cujo pensamento é neo-liberal.


Um verdadeiro político neo-liberal, estou a falar de alguém que seja coerente com as suas convicções ideológicas, - sublinho a palavra ideologias, porque entendo que, tal como o comunismo, o neo-liberalismo é uma ideologia – dizia eu, para estar de acordo com a ideologia, o ministro Vítor Gaspar não devia aumentar impostos. Pelo contrário, impunha-se que tratasse, na primeira ocasião, de os baixar. Chamo a isso coerência política, coisa cada vez mais rara e fora de moda.


Ora, ninguém confrontou o sr. Ministro com o desvio entre a sua ideologia e a sua prática governativa.


E a ocasião estava ali à mão. Sobre o que é que o ministro discorreu na dita conferência? Sobre duas coisas.


Sobre um novo imposto que atinge os assalariados, os reformados e os precários, ou seja o essencial das forças produtivas ou que já o foram.


É o imposto do pai natal, e a injustiça e a desonestidade dum tal imposto são óbvias. Um governo que, antes de o ser, sempre disse que não aumentaria os impostos e a primeira coisa que decidiu foi punir, castigar desalmadamente quem trabalha e vive com mais de 500 euros. Um governo que, na sua fúria castigadora, poupou o lote dos privilegiados que se entretêm livremente a acumular fortuna.


Falou também das privatizações.


O corte no subsídio do natal vai ser aplicado apenas em 2011, é o que o governo promete, mas os governos falam, falam e depois, enfim, quem é que pode acreditar piamente, confiadamente nas suas palavras?


Mas, sobre as privatizações, parece não haver grandes dúvidas, eles vão privatizar rápido e em força, foi o que o Salazar fez quando mobilizou as tropas para as guerras coloniais no início dos anos 60.


A questão das privatizações é uma história muito mais séria do que o imposto do pai natal.


Basta olhar para a lista das empresas a privatizar, para perceber a gravidade do que se vai passar.
À vista desarmada, descobre-se que a lista foi pensada como uma espécie de apelo ao saque, estou a falar de saque de piratas.


São oferecidas, aos futuros piratas, empresas que são as últimas “jóias da coroa” teoricamente vocacionadas para assegurar serviços públicos. Empresas, cuja importância crucial não deriva apenas do facto de estarem ao serviço dos cidadãos em geral. Elas são elementos essenciais da independência nacional.


Não gostam da expressão, eu faço questão, é que não há liberdade sem independência nacional.


Sei que já nos resta pouco dessa independência, mas agora, no espaço de poucos meses ou semanas, não conheço o calendário, sei que esse pessoal do governo com o ministro das finanças à frente estão todos com muita pressa, eles vão fazer passar para as mãos do capital privado, estrangeiro ou não – essa distinção não interessa muito, porque nós já sabemos de que casa gasta o capital dito nacional - , a ANA dos aeroportos, a TAP, a Galp, a EDP, as Águas de Portugal, a REN, os CTT, a CP Carga e o ramo segurador da CGD.


Resumindo e concluindo, o Governo, de que o doutor Vítor Gaspar é ministro das finanças, vai pôr a leilão e vender pelo preço da uva mijona as empresas estratégicas nacionais que nos restam. Estratégicas, sim. Haverá coisas mais estratégicas do que a água, a energia, o ar e os transportes e comunicações?


Mas o aspecto estratégico não é o critério decisivo do negócio.


Se essas empresas fossem deficitárias, se dessem prejuízo, o governo, por mais neo-liberal que seja, nunca as poria à venda. Só vai privatizar as que vão dar lucro aos privados, é a velha história de amor entre governantes e capitalistas. Esse amor eterno, esse sim, é o critério decisivo, o critério digno da ideologia neo-liberal.


Estes senhores que agora mandam em nós são coerentes na oferta de chorudos negócios a preço de saldo, oferecidos ao capital internacional, mas não são neo-liberais quando se trata de impostos. Privatizam por um lado, aumentam impostos por outro, ninguém é perfeito.


Parêntessis: esta frase faz-me pensar no filme de Billy Wilder Someone like it hot (1959).


Escapa-me, porém, por que é que o governo Passos Coelho insiste em privatizar a RTP. É que a RTP não dá lucro.


Aliás, os patrões das televisões privadas não estão nada contentes e percebe-se porquê.


Um novo canal privado só vai aumentar a concorrência.


Ora, os capitalistas da nossa praça, que passam a vida a mandar vir contra o Estado, mas que não podem passar sem ele, que dependem das chamadas parcerias público-privadas e de outros negócios mafiosos, esses capitalistas, que não vão pagar o imposto do pai natal, entram em pânico quando aparece um novo concorrente no mercado e, então, desatam aos berros.


Não é verdade, Dr. Balsemão, que vai começar a berrar contra o governo do partido de que é o distinto fundador nº1?


Para chatear esses nossos tremendos e nefastos capitalistas, privatizem então a RTP.


E já agora, privatizem também a Carris, os Metros de Lisboa e do Porto, a Refer. Privatizem a CP toda e não apenas a CP carga que é a única que dá lucro.


Não são coerentes no que toca aos impostos, ao menos, sejam coerentes em relação às privatizações. Vá lá, livrem-nos de tudo o que o nos dá despesa e prejuízo, livrem-nos do que não é rentável.



O povo que paga impostos, a legião dos que ganham quinhentos euros ou pouco mais, ou ainda menos, o povo dos falsos recibos verdes, o povo dos desempregados, o povo que paga tudo, o povo que tem as costas largas provavelmente humildemente agradecerá.


Um povo de brandos costumes agradece tudo.