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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

GANHOU A ABSTENÇÃO



Nas noites eleitorais é sempre o velho folclore das reacções dos candidatos e dos partidos que os apoiaram, os comentários dos comentadores encartados.
Mas, em geral e desta vez não foi excepção, o essencial fica sempre por dizer.

Num universo de 9.629.630 eleitores, Cavaco Silva obteve 2.230.104 votos (23,16% do total de eleitores), ganhando deste modo as eleições à primeira volta com uma percentagem de 52,9% dos votos expressos, com exclusão dos votos brancos e nulos.
A realidade dos números não deixa margem para dúvidas. Apesar da sua vitória inquestionável, o novo presidente foi eleito por menos de ¼ dos cidadãos portugueses com direito a voto. Vamos ter um presidente de todos os portugueses?

Manuel Alegre, 2º classificado apoiado pelo PS, pelo BE e pelo MRPP, obteve nestas eleições menos cerca de 305.000 votos do que em 2006, eleições a que concorreu contra o candidato oficial do seu partido e sem o apoio de qualquer outro partido. 2011 foi um desastre para Manuel Alegre e para a esquerda.
Desastre, é essa a palavra.
Desastre anunciado, só não via quem não queria ver.
Vale a pena perguntar agora, será que no campo político que apoiou Alegre, será que entre os responsáveis dessa débâcle alguém vai ter a coragem e a lucidez de se interrogar e responder honestamente sobre as suas causas e consequências?

Fernando Nobre, que não tinha qualquer apoio partidário, ficou abaixo de Manuel Alegre apenas um pouco acima dos 5%.


José Manuel Coelho, candidato completamente marginal, ilhéu e sem qualquer apoio de notáveis ou de grupos socialite lisboetas conseguiu perto de 200.000 votos, pôs em cheque o Sadam Hussein da Madeira, e inclusivamente ganhou ao Cavaco no concelho do Funchal.

Se adicionarmos a estes dois candidatos os votos obtidos por Defensor Moura (1,57%) temos uma percentagem total de votos obtidos sem apoio partidário (20,2%) que é superior à percentagem de Manuel Alegre (19,8%). O que é que tudo isto quer dizer?

Francisco Lopes teve grandes comícios, teve o apoio da melhor máquina partidária que existe em Portugal, foi entre todos os candidatos aquele que apresentou um discurso mais elaborado e com mais conteúdo, mas não conseguiu ir além da barreira dos 7%, confirmando mais uma vez os limites da influência do partido comunista. Tanta militância, tanto esforço e tão poucas perspectivas de mudança. Estará o PC definitivamente imunizado contra qualquer forma de aggiornamento?


Apesar de o vencedor incontestável destas eleições ter sido a abstenção (53,4%), os comentadores de serviço passaram por este facto como cão por vinha vindimada.
Ora isto merece séria reflexão.


O que parece é que a maioria dos eleitores portugueses não atribuiu qualquer importância à função presidencial e, por isso, não se deram à maçada de ir votar. Quais serão as razões?


Hipótese mais óbvia: se somarmos a abstenção de 53,4% e os 20,2% de eleitores que votaram nos três candidatos apartidários, temos um enorme universo de eleitores ou de potenciais eleitores que rejeita a vida política, que rejeita os políticos e as actuais configurações partidárias.


É provável que essa rejeição seja mais marcada entre os potenciais eleitores de esquerda, traumatizados com o descalabro, a incompetência e a desonestidade da governação dos governos Sócrates e desmotivados face à ausência de um discurso coerente com alternativas realistas e viáveis à crise por parte dos partidos de esquerda e dos sindicatos.


Neste terreno, Manuel Alegre foi um completo flop, não foi capaz de transmitir nenhuma mensagem nova, foi patética a sua insistência no discurso sobre a resistência anti-fascista. Tudo isso é muito glorioso mas é passado.

Ele devia ter falado ao povo português sobre os problemas do presente e sobre o futuro, devia ter sabido mobilizar as gerações mais novas apresentando-lhes alternativas consistentes.


A outra explicação para a enorme abstenção poderá ter a ver com os efeitos da desvalorização dos poderes presidenciais levada a cabo pelo candidato Cavaco durante o seu primeiro mandato.


Esta questão dos poderes presidenciais foi completamente escamoteada durante a campanha eleitoral.

Quem se der ao trabalho de ler com atenção a Constituição da República poderá constatar que o Presidente da República dispõe de poderes efectivos e de grande alcance. Mas não tem sido essa a interpretação da comunicação social.

E não foi essa a interpretação do presidente agora reeleito, que adoptou como guia do seu mandato a velha regra liberal laissez faire laissez passer.


O homem teve muitas oportunidades para intervir, para agir. Em vez disso, preocupou-se exclusivamente com a sua reeleição, promovendo-se a si próprio e divertindo-se de maneira narcísica e totalmente irresponsável com episódios menores e irrelevantes como foram o estatuto dos Açores e as escutas ao palácio de Belém.


Ao longo dos cinco anos do seu mandato e principalmente durante o último ano e meio, deixou o Sócrates conduzir à rédea solta o país para o abismo em que ele agora se encontra.

Cavaco ficou quieto no seu canto e, por isso, é o principal responsável pela actual situação do país. Não fez aquilo que a Constituição lhe mandava fazer. Ao contrário de Jorge Sampaio que, por muito menos, demitiu o Santana Lopes.

1 comentário:

O Raio disse...

O azar do Manuel Alegre foi ter apoios a mais.

Era apoiado por dois partidos opostos em quase tudo. Resultado, não podia abrir a boca... a não ser para dizer banalidades.

"deixou o Sócrates conduzir à rédea solta o país para o abismo em que ele agora se encontra. "

Aqui discordo completamente!
Sócrates não conduziu o país para nenhum abismo. Tivesse sido Cavaco o Primeiro Ministro e, na melhor das hipóteses, estávamos na mesma.

O que conduziu o país para o abismo foi a desastrada política europeia e, principalmente a desastrada adesão ao Euro.

E nestes pontos, Sócrates e Cavaco estavam de acordo.

O grave nesta eleição foi não termos tido um candidato que pusesse a Europa na mesa.

Infelizmente o único que poderia ter feito isso, o do PCP, foi demasiado cobarde para o fazer.