terça-feira, 10 de Novembro de 2009

SUBORNOS



“Não conhecia em toda a cidade uma pessoa honesta. O meu pai [arquitecto] aceitava subornos e estava convencido de que lhos davam por respeito às suas qualidades espirituais; os alunos do liceu, para passarem de ano, iam morar nas casas dos professores que lhes cobravam por isso quantias enormes; a mulher do comissário militar, por alturas do recrutamento, levava dinheiro aos recrutas, aceitava mesmo convites para almoçar e até, uma ocasião, na igreja não conseguia erguer-se dos joelhos porque estava bêbada; durante o recrutamento, os médicos também aceitavam subornos, e o delegado de saúde e o veterinário impuseram tributo aos talhos e restaurantes; na escola distrital vendiam-se diplomas que concediam privilégios de terceira categoria; os bispos auxiliares sacavam dinheiro dos clérigos subordinados e estes dos sacristães; nas administrações municipal, urbana, médica, etc. gritavam às costas de cada peticionário: ‘Tem de agradecer!’, e o requerente voltava atrás para desembolsar trinta ou quarenta copeques de gratificação. E os que não recebiam subornos, como os funcionários dos tribunais, por exemplo, eram arrogantes, em vez da mão, cumprimentavam com dois dedos, destacavam-se pelas suas opiniões frias e limitadas, jogavam muito às cartas, bebiam muito, casavam-se com herdeiras ricas, e exerciam, sem sombra de dúvida, uma influência nociva e depravadora na sociedade. Apenas as meninas davam a sensação de pureza moral; a maioria delas tinha ambições sublimes, almas honestas e puras; mas essas não conheciam a vida e acreditavam que os subornos eram pagos por respeito das qualidades espirituais dos subornados e, depois de casadas, envelheciam rapidamente, decaíam e afogavam-se com desespero no lodo de uma existência vulgar, pequeno-burguesa.”


Anton Tchékhov, “A minha vida. História contada por um provinciano”, in:

Contos de Tchécov, volume V, Tradução (do russo) de Nina Guerra e Filipe Guerra, Maio de 2006, Relógio d’Água Editores, Col. Clássicos, Lisboa

MUROS



Em 1938, na Kristallnacht de 9 de Novembro, começou a solução final nazi de extermínio dos judeus, o holocausto que custou a vida a seis milhões de homens, mulheres e crianças.


Cinquenta e um anos depois, dia por dia, ocorreu também na Alemanha outro acontecimento marcante da história do século XX, a queda do muro soviético de Berlim. Rompeu-se nesse dia a cortina de ferro que durante anos protegeu o paraíso comunista. Mas, ao contrário de Adão e Eva, os berlinenses não foram expulsos do paraíso, eles saíram de livre vontade, arrombaram com o muro com um murro de liberdade.


O que tem a ver a Kristallnacht nazi com o muro de Berlim?





Tem a ver com os caminhos da humanidade no século passado, não os caminhos da grande Humanidade, o que é uma fantasia decalcada da ideia muito alemã de Weltanschauung, ideia de totalidade, de sistema global, visão global do mundo, soluções globais. Fantasia que exclui por razões óbvias a ideia de liberdade individual, a liberdade dos humanos.


A humanidade dos humanos é outra coisa, somos todos seres diferentes, altos, baixos, mulheres, homens, judeus, crianças, asiáticos, africanos, pobres, ricos, remediados, inteligentes, menos dotados. Seres humanos com direitos, seres livres, que no passado lutaram e continuam a precisar de lutar por esses direitos.


Apesar de todas as retóricas sobre a Humanidade e os direitos humanos, o séc.XX não foi o século da liberdade, houve genocídios, chacinas, colonialismos, terríveis guerras e muitas outras infâmias e crimes.


Mas pode acontecer, sabe-se lá, que em 9 de Novembro de 1989 tenha começado um século diferente. A esperança é a última coisa a morrer.




A muralha da China começou a ser erguida cerca de 200 anos antes de Cristo, tinha uma função defensiva, mas, apesar da grandeza e da extensão das suas fortificações, que chegaram a atingir cerca de sete mil quilómetros no século XV, ela não impediu as repetidas incursões de mongóis e outros invasores. No séc. XVI, chegou-se à conclusão que não servia para nada, foi abandonada, ficou o património turístico.


Depois da queda do muro comunista, nasceram novos muros políticos e arquitectónicos. O que nos ensina a queda do muro de Berlim e o abandono da muralha da China é que esses novos muros, que ainda subsistem, serão certamente derrubados e esse derrube poderá não levar muito tempo a acontecer. No fim da história, tal como em Berlim, entrarão em cena os negociantes de recordações e de pedras da opressão.




O chamado Muro da Cisjordânia não serve apenas para separar Israel da Cisjordânia. 80% do muro mandado construir em 2002 por Sharon situa-se em território fora das fronteiras israelitas e protege colonatos construídos em terra palestiniana. Quando estiver terminada a construção, graças aos seus mais de 700 quilómetros, cerca de 10% da Cisjordânia ficará a pertencer a Israel.


Noite de Cristal e muro de Berlim têm, assim, outra conexão terrível. É que a incoerência humana em relação aos direitos fundamentais pode ultrapassar todos os limites imagináveis. Quem no seu perfeito juízo pode justificar que os judeus, vítimas do holocausto nazi, possam agora sequestrar 450.000 palestinianos numa prisão cercada por uma cortina de betão?


Gigantesco ghetto que encerra um mundo pior do que era o mundo soviético: proibidos de viajar, impedidos de trabalhar, o que resta aos palestinianos cercados? Deitar bombas?


Talvez porque tenham a consciência pesada, os americanos pouca importância têm dado ao significado, às consequências desta arquitectura totalitária israelita, que em grande parte é financiada por dólares do tio Sam.


É que eles próprios, americanos, fabricaram também um muro, mas mais ambicioso de quase mil quilómetros, sofisticado, com várias barreiras, iluminação eléctrica de alta intensidade, sensores, detectores pessoais, helicópteros armados, tudo em grande: 2.400 milhões de dólares para a construção, mais 6.500 milhões para a manutenção durante os próximos 20 anos, talvez o custo de várias muralhas da China.


Mas os custos que deveriam contar são outros, os custos em vidas humanas: cerca de 6 mil pessoas já morreram ao tentar passar a fronteira, contas que pecam talvez por defeito. Contas feitas desde 1994, ano em que o por muitos apreciado democrata presidente Bill Clinton criou o dito muro.



Ó Clinton, porque é que mandaste construir o muro? Para impedir a entrada de indesejáveis imigrantes mexicanos, responderá ele.


O que é curioso, se assim se pode dizer, é que uma grande parte do território sob vigilância de mais este muro da vergonha era pertença há muito tempo do México, o que confirma, se isso fosse necessário, que o que prevalece é sempre a lei do mais forte.


Mas as leis do futuro são incertas e podem ser simpaticamente irónicas. Antecipemos que talvez um dia aquela sofisticada fortaleza possa servir para proteger o México da entrada de indesejáveis imigrantes americanos ilegais.


Muitos políticos, mesmo os democratas, gostam de construir muros para sequestrar, para reprimir, para castigar. Mas há muitas maneiras de o fazer. No tempo do Salazar, muitos condenados pelos tribunais políticos eram desterrados para sítios com mar à volta, Timor, Açores, por exemplo.


Em Itália, Mussolini fazia o mesmo, era o chamado confino, os confinati.


Na Birmânia, a ditadura militar confinou Aung San Suu Kyi num sítio com água à volta. Separou-a do marido, separou-a dos filhos. Uma mulher que resiste pela liberdade, pela humanidade. Uma mulher que a humanidade que temos em nós deve amar.



No nosso quotidiano, quando nos levantamos e vamos pela rua, quando por acaso olhamos o céu, a luz do sol, a água que corre no Tejo e os barcos que nela se passeiam, devíamo-nos dar conta de que estamos rodeados de maravilhas que dão sentido à nossa humanidade. A verdade é que não nos extasiamos, temos pressa, não reparamos nos muros que não nos deixam ver o que há à nossa volta.

Muros que não são apenas os condóminos fechados, os lugares reservados, os sinais distintivos de classe, com os sem-abrigo lá fora, sem tecto, sem muros, sem paredes, nem janelas.


São também aqueles muros que tornam as pessoas incomunicáveis, distantes, indiferentes.


As pessoas que moram no mesmo prédio, que se cruzam todos os dias nos mesmos sítios e que não dizem bom dia, olá como está.


As pessoas que se olham de lado, que comentam entre dentes o decote mais ousado, o marido mais jeitoso, as calças mais apertadas. Talvez inveja, ou mais provavelmente muros que cada um ergue dentro de si para não ver a humanidade que está ali perto.





Robinson Crusoe e Sexta-Feira, lembram-se da história de Daniel Defoe?


É uma história de amor pela humanidade, porque nós humanos não podemos viver sozinhos, precisamos de gente à nossa volta, precisamos de comunicar com a diferença.


Estamos todos numa espécie de arca de Noé e só juntos nos podemos salvar do naufrágio de valores e derrubar os muros e fortalezas que ameaçam as nossas liberdades e a nossa humanidade.


segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O IDIOTA E A PIETÀ

Estava a começar a ver o Rashomon do Kurosava, a cena inicial do templo em ruínas, a bendita chuvada que cria a trama do filme, com o monge budista e o lenhador que começam a contar a um outro tipo, que não se sabe o que é que faz, a história do samurai que apareceu morto na floresta.
É um filme sobre o jogo da verdade, a verdade não existe, cada um inventa a que lhe convém, mas a esperança na humanidade renasce sempre, é o que diz, no fim do filme, a cena do lenhador com o bebé nos braços, é um pouco o sentido do filme.

Neste filme, do que gostava mais era da chuva forte nas ruínas que ritma a conversa daqueles três. Começava a ficar embalado para ver a história até ao fim, mas de repente tocaram à porta.

Abrir a porta a alguém tornou-se raro, mesmo improvável. As pessoas já não se visitam, a não ser que sejam convidadas, telefonam-se, encontram-se na net, emailam-se, combinam encontrar-se fora, encontram-se nos intervalos do trabalho quando vão comer ou beber qualquer coisa à pressa.
O elevador há muito que estava avariado, isso já fazia parte do décor, alguém que se dava ao trabalho de subir as escadas até ao sexto andar para tocar à campainha, quem seria?

Ficou mudo, hirto, sem saber o que dizer. Era a vizinha do terceiro andar, há muito que não a via.

Quando às vezes se cruzava com ela na escada, tentava imaginar que idade teria, talvez mais de setenta, mas a verdade é que não sabia avaliar para além duma certa idade. Nela, tudo era extraordinário, não apenas porque continuava a ser uma mulher muito bonita. Tinha estilo, olhar desafiante mas amigável, não era agressiva antes segura.

Tinha uma espécie de aura, de luz, diferente daquelas fosforescências que se representam à volta da cabeça dos santos. A aura dela era a da Maria Callas quando cantava vestida de Norma. Era isso.

Nos momentos em que se cruzavam, sentia a necessidade de meter conversa, de interpelá-la. Mas ficava intimidado, era como se a mulher não pertencesse ali. Meter conversa como? Não era uma cena de discoteca. Mas a sua curiosidade ia aumentando. Ela irradiava um porte inatingível, um esboço de sorriso de Gioconda. Provavelmente somava séculos de linhagem a aprender a estar, a andar, como brilhar no mundo, em sociedade, a arte de seduzir.

E agora este surpreendente objecto do seu fascínio e curiosidade estava ali à porta, mas instintivamente sentiu que ela tinha mudado, como se tivesse envelhecido de repente.

- Desculpe incomodá-lo, a minha nora telefonou-me, o meu filho está muito doente, tenho que respirar com alguém ao meu lado. Talvez possamos conversar, não sei o que fazer…Peço desculpa.
Atrapalhado, convidou-a a entrar, ela sentou-se no sofá, foi-lhe buscar um copo de água.

- É curioso que esteja a ver um filme do Kurosawa, de que gosto muito. Sempre fui cinéfila. Quando vivia em Paris, passava o tempo na cinemateca de Chaillot, acho que vi os filmes todos, mas o meu preferido do Kurosawa é um filme de que nunca se fala, é O Idiota que foi feito um ano depois do Rashomon, no princípio dos anos 50. E os actores dos dois filmes são praticamente os mesmos, o que faz de samurai é o actor que representa o papel do príncipe Mychkine.

- Nunca tinha ouvido falar desse filme do Kurosawa, parece-me que o Gérard Philippe entrou numa versão francesa do livro do Dostoiewsky, mas nunca a vi…

- Sim, o Gérard Philippe, os franceses…Sabe, as histórias do Dostoiewsky pertencem a outro planeta, o Kurosawa percebeu isso muito bem, é um filme japonês, não é russo, mas provavelmente seria preciso alguém como o Tarkowsky para fazer um filme russo d’ O Idiota… Isto não terá a ver com nacionalidades, serão talvez afinidades escondidas que se transmitem no tempo apenas entre pessoas que vêm do mesmo planeta… Desculpe ter interrompido o seu filme e estar para aqui a filosofar.

- Conheço mal os escritores russos, li uma vez uma coisa do Turgueniev, já não me lembro do título…

- O Dostoiewsky detestava o Turgueniev, era demasiado parisiense para a sua alma russa, eram incompatíveis. O Dostoiewsky era muito fascinado pela figura do Cristo e há quem diga que o príncipe Mychkine reproduziria a imagem do Cristo, um Messias de quem todos estavam à espera de salvação, amor ou dinheiro…
Mas, Mychkyne não tinha pai, não tinha mãe e, no final, todos os que o cortejavam ou o amavam cortam com ele, e o príncipe volta para a sua solidão… para a sua loucura…para a sua tristeza… Choca-me a tristeza do príncipe idiota que não era deste mundo… É uma coincidência estranha ter vindo bater à sua porta e estarmos aqui a falar do Dostoiewsky e dos filmes do Kurosawa…

Gostava de poder interrompê-la, oferecer-lhe qualquer coisa para beber, estava quase em pânico, queria que ela sorrisse como quando se cruzavam nas escadas, mas sentiu que esse tempo tinha acabado.

- Sabe, a tristeza pode ser uma alegre companheira, enquanto nos acompanha vamo-nos olhando por dentro, vamo-nos reconhecendo na solidão dos dias, ficamos mais fortes...Pode não ser dramático, podem ser apenas estados de alma, percepções sem espaço, deambulando sozinhas na nossa mente…Mas com o meu filho lá longe, não consigo deambular sozinha, por isso, vim bater à sua porta…O meu filho que talvez esteja em agonia, foi para a Argentina há muitos anos, passei tanto tempo sem o ver…A minha tristeza é sobre qual será a imagem que ele guardou da sua mãe. Sinto que não terei resposta…Sabe, a imagem que guardei da minha mãe é muito forte, continua muito presente, ela cantava arrumando a casa, ia passando a mão pelos meus cabelos, sempre de sorriso aberto e alegre, enérgico e doce… ela tinha dezoito anos, é essa a minha imagem de uma mãe. A imagem que me alimentou até a esta tristeza pelo meu filho.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

OUTONO QUENTE, OUTONO FEMININO?



Depois das tristezas eleitorais, temos o privilégio de um Outono quente. Oferta enigmática e quiçá inquietante.
Como interpretar este aquecimento climático, serão os trinta graus um mau prenúncio? Será que a nomenklatura socialista vai continuar a massacrar-nos, ou será que o "jovem" Sócrates vai finalmente descobrir que nem tudo o que luz é ouro?
Anuncia-se menos pobreza, mais alegria, mais justiça, mais respeito, menos arrogância?

No meio desta perplexidade outonal, a televisão, por uma vez, contribuiu para me dar algum alento. É que me foi dado ver algumas das novas deputadas que se vão sentar nos cadeirões de S. Bento.
Num dia outonal como os de antigamente, isto não teria qualquer espécie de interesse.
Mas de repente no dia de hoje surge qualquer coisa nova e interessante, passe a redundância, reais novidades e até alguns sinais de esperança. Ou apenas ilusão climática?


Não fixei os nomes de todas as novéis de S. Bento apresentadas pela TV.
A única personagem que consegui identificar é uma jovem mulher de cinema relativamente bem conhecida e que, aliás, mora em Paris, tem lá a sua família. Primeira novidade inquestionável, primeiro sinal de esperança: estamos mesmo a ficar cosmopolitas, o parlamento vai ter uma deputada que mora em Paris.
Assinale-se, não se trata de uma eurodeputada que durante a semana trabalha em Bruxelas e ao fim de semana vem ver a família que mora em Lisboa e arredores, ou seja, em Portugal. O caso é muito mais interessante, vislumbro aqui uma espécie de entrismo francófono de estilo trotzsquista no parlamentarismo português, soyez la bienvenue, Madame!

Das artes, vem também uma das novas deputadas do BE, tem um ar muito decidido, gostei, não fixei o nome, peço desculpa, fica para a próxima, haverá certamente oportunidade para isso.

Outras duas novas deputadas são particularmente bem vindas, são mais jovens, são especialmente bem apessoadas, dá gosto vê-las, elles ont l’air du temps, estou completamente farto daquelas chipalas manhosas que me entram pela casa dentro a propósito dos conciliábulos parlamentares. Alegria, alegria, venha a nova geração, venha gente com bom aspecto! Novas ideias, novas políticas?


Quatro novas deputadas, uma eleita pelo PS, outras pelo PSD, pelo PC e pelo Bloco, o espectro partidário, quoi! Estamos no bom caminho.
Mas, dirão, falta o CDS. Não é verdade. É que a TV também mostrou uma nova deputada, a Assunção Cristas, mas o contexto dessa apresentação foi outro, de significado mais forte.
Reparem, ela apareceu ao lado direito do Paulo Portas na cerimónia de negociações em S. Bento com o Sócrates por causa do novo governo.
Como interpretar o seu lugar nessa liturgia televisiva? Não é ousado depreender-se que ela é apresentada como o número dois do CDS. Significado óbvio: a mulher vai longe, já extravasou o grupo das jovens deputadas, vai lá mais à frente.

Mas o dia televisivo foi mesmo feminino, um dia memorável, os jornalistas às vezes conseguem acertar. É que fiquei também a conhecer duas das vinte e duas presidentes de câmara eleitas no domingo e gostei. Gostei do ar delas, gostei da mensagem subliminar, gostei que tivessem sido eleitas no mesmo dia em que a Fátima Felgueiras foi posta sobre patins.
Não me lembro que partidos as elegeram, mas no fundo isso vai sendo cada vez menos importante. Sincretismo político que, bem vistas as coisas, que sejam mais homens ou que sejam menos mulheres ou vice-versa, não deixa de me irritar.

É que estamos numa espécie de guerra social, a coisa está preta e as clivagens não passam entre homens dum lado e mulheres do outro. Qualquer que seja o sexo político nada é pacífico, podemos ser mais civilizados, isso é bom, mas cada um e cada uma têm que lutar na sua trincheira.

E provavelmente nessa guerra são as mulheres quem tem mais a ganhar.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

O POVO PARECE CONTENTE



Não podemos escapar à política, ela toma conta de nós, por muito que nos esforcemos parece que não há nada a fazer. Mas imaginemos outra alternativa: poderemos nós tomar conta da política?

A verdade é que a política está cada vez mais rasteira e despudorada, os ventos não correm de feição a activismos contra a corrente, a contestações. A margem de manobra é, por isso, muito estreita.

Durante quatro anos e meio tivemos a arrogância e a ambição desmedida do jovem Sócrates parvenu, tivemos a cartilha neo-tecnocrata e neo-liberal versão socialista. A cartilha do deficit das contas públicas, do deficit da Segurança Social, do código do trabalho, da ministra Rodrigues, do ministro Pinho, do ministro Jamais, do grande inquisidor SS e tutti quanti. A cartilha do código que odeia direitos, que adora flexibilidade, que adora a disponibilidade laboral, a obediência e a submissão de quem precisa de trabalhar.
A cartilha da reforma da administração pública e da disponibilidade dos funcionários públicos para o caixote dos desperdícios, dos milhões aos bancos e aos poderosos, a cartilha dos contentores de Alcântara. A cartilha de mais de seiscentos mil desempregados e de mais de dois milhões de pobres.

Durante quatro anos e meio foi a obsessão pelo deficit, a estagnação da economia, mais desemprego e pobreza. Mais precariedade no emprego, mais descriminações sociais, mais desigualdade, mais injustiça, mais corrupção. Menos educação, menos direitos.

Mas o povo parece estar contente, vai votar e o Sócrates, é o que diz a TV, vai ficar à frente. Qu’est-ce qu’on peut faire, il n’y a rien à faire (é uma canção francesa, tanto quanto me lembro).

Na campanha que nos deu a TV, as grandes questões foram o TGV e as escutas ao Cavaco. Falam do Salazar, escutam-se uns aos outros, espiam-se, odeiam-se. E o país, os pobres, os desempregados, os jovens sem futuro, os mais velhos a passar fome, alguém se preocupa?



Temos que aturar isto, parece a corte do D. Carlos. Caminhamos para um regicídio? Não é provável, tout le monde il est beau, tout le monde il est gentil.

Será que fazer política tem que ser falar do TGV e do Cavaco e seu assessor? Onde é que estão as diferenças, as fronteiras entre partidos, entre correntes de pensamento e propostas?
Discute-se política na campanha eleitoral? Não se discute e isso provavelmente deve-se ao facto de antes da campanha eleitoral, também não se discutir nada.
Onde estão os valores, a solidariedade, os ideais políticos? Onde está a contestação, onde está a malta nova, cada vez com menos futuro, cada vez mais precária, cada vez mais calada? É assustador e quem ganha é este Sócrates, os que estiveram antes e os que virão a seguir.

Campanha eleitoral, ausência de questões, questões sem resposta. Porque o que interessa são apenas os interesses. Não apenas os interesses dos banqueiros, dos grandes capitalistas. O que faz mover tudo, a engrenagem dos partidos que mandam na política é o pessoal à procura de bons tachos, o pessoal que tem o cartão do partido no momento certo. É essa a engrenagem.

Os que não têm nada a ver com isso são apanhados sem saber bem como pela política, sofrem as consequências dos desmandos, das injustiças, são apanhados pelas formigas partidárias que trabalham denodadas para amealhar vantagens. Tudo se passa num admirável mundo, bem ordenado, num admirável mundo que não tem nada de novo, aliás, está a apodrecer.

Tomar conta da política? Revoltem-se, organizem-se, falem com os vizinhos, com os colegas, discutam, mas não chateiem em casa, apaguem a TV.

sábado, 12 de Setembro de 2009

11 DE SETEMBRO DE 1973

As televisões não esquecem o 11 de Setembro de 2001 e é bom que ninguém esqueça o horror desse dia. Mas um 11.09 pode esconder um outro.





Em 1973, o 11 de Setembro, não foi contra Nova Iorque, não foi contra o Pentágono. Nesse dia, os maus não foram os terroristas da Al Kaeda. Richard Nixon, CIA, remember? Nesse dia, as vítimas não foram só pessoas, foi também um país inteiro, foi a democracia chilena, foi Salvador Allende, foi Victor Jara.


Passados 36 anos, essas vítimas continuam a comover-me, lembro-me sempre delas neste dia. E lembro-me, associo muitas histórias passadas e presentes.


Nos anos 70, a história das intervenções para instalar ditaduras favoráveis aos interesses americanos já era uma longa história, a contabilidade é difícil de fazer.


Em 1954, por exemplo, a CIA, que existia ainda há pouco tempo, estreou-se em grande, organizando, comandando e fornecendo os meios militares necessários à invasão armada da Guatemala. O governo democrático e reformista de Arbenz Guzmán, a democracia guatemalteca acabaram aí. Iniciou-se então a longa dinastia de ditadores criminosos e corruptos, responsáveis pelo genocídio de oitenta mil, talvez mais, pessoas principalmente de etnia índia. God save America.

Mais exemplos da folha de serviços da CIA?
1964, golpe de Estado contra João Goulart, no Brasil.
1965, invasão da República Dominicana.
1971, golpe de Estado contra o presidente Torres na Bolívia.
1973, golpe de estado contra o presidente Allende.





A intervenção americana no Chile de Allende foi mais sofisticada, teve muitos cúmplices, muitos apoios, tudo orquestrado pela CIA, com a preciosa colaboração da multinacional ITT.




Quando Allende subiu ao poder em 4 de Novembro de 1970, já estava tudo preparado, o plano americano era simples. Para o destituir, tinha que se atacar a economia chilena, e provocar desordens sociais. Para concluir, o golpe militar do costume.



Infelizmente, tudo correu como previsto, nestas coisas os maus têm sempre razão. O governo Nixon montou um cerco à economia, conseguiu sufocá-la, a CIA encarregou-se de organizar e financiar os grupos sociais anti-Allende, empenhados em acções de sabotagem e de agitação social.

A situação económica agravou-se dramaticamente, a inflação passou de 22,1% em 1971 para 163,4% em 1972 e 381,1% em 1973. O crescimento do PIB chileno passou de 9% positivos em 1971 para 4,2% negativos em 1973.


O golpe militar começou na cidade portuária de Valparaíso, com tropas navais chilenas a avançarem para Santiago. Mas estas tropas tinham as costas quentes, enquanto avançavam, havia navios de guerra americanos preparados para invadir o Chile, caso o golpe falhasse.


Mas o golpe resultou, Allende foi assassinado no Palácio de la Moneda. Terminado o golpe, o general Pinochet apresentou-se para receber a guia de marcha. Encheram-se os estádios, foi um massacre nojento. A voz sublime de Victor Jara calou-se, choraram os democratas e anti-fascistas de todo o mundo.




A América foi igual a si própria, como sempre quando ganha. Manteve-se serena, sem estados de espírito, com o sentimento do dever cumprido, os valores americanos, sabe-se lá o que isso é. A América não conseguiu impedir a vitória dos comunistas vietcongs, vingou-se em Allende porque era marxista, parece que era esse o pretexto.


Em Agosto de 1974 Nixon é despejado pelo impeachment do Watergate e Gerald Ford ocupa o seu lugar.


Três anos antes, Nixon tinha suspendido a convertibilidade do dólar em ouro, enterrando o sistema de Bretton Woods e pondo a rolar nos carris o “novo capitalismo” assente na mundialização neo-liberal.


Logicamente, Gerald Ford despachou para o Chile o grupo de economistas loucos ultra-liberais, conhecido pelo petit nom de Chicago boys e chefiado por Milton Friedman. A América no seu melhor, à conquista do mundo.

A epopeia neo-liberal, cujos brilhantes resultados foram testemunhados o ano passado por toda a gente e, em particular, pelo sr. Alan Greenspan, patrão da reserva federal americana, iniciou a sua conquista do mundo no Chile, onde em Março de 1975 Friedman se encontrou com o ditador Pinochet.

Este encontro foi um sucesso, o Pinochet concordou (será que podia não concordar?) com a terapia de choque prescrita pelo chefe dos Chicago boys: privatização das empresas do sector público, supressão das barreiras alfandegárias, liberalização dos preços, incluindo de bens essenciais, redução do orçamento do Estado, despedimento de milhares de funcionários, autorização aos investidores estrangeiros para repatriarem a totalidade dos seus lucros, flexibilidade do emprego, privatização do sistema de saúde e do sistema de reformas, etc., etc.

O trivial do neo-liberalismo com que nos bombardeiam todos os dias os distintos comentadores, banqueiros e grandes empresários da nossa praça. Só que nessa época tudo isso era o começo e o Chile foi a cobaia escolhida.

Os resultados da terapia foram brilhantes. Durante o primeiro ano da sua aplicação, a economia chilena recuou 15% e a taxa de desemprego passou de 3% quando Allende era presidente, para 20%. Após 15 anos de funcionamento do laboratório neo-liberal, 45% dos chilenos viviam abaixo do limiar da pobreza.

Cruel ironia, em recompensa pelos brilhantes serviços prestados à Humanidade em geral e ao Chile e à América Latina em particular, em 1976 o sr. Friedman foi coroado com o prémio Nobel da Economia!

Coincidência por coincidência, data por data, o governo americano tinha a obrigação de nesta triste efeméride fazer um rapprochement entre Nova Iorque e Santiago do Chile. E a obrigação de tirar algumas lições.

O mundo precisa disso, precisa de saber quando é que os EUA fazem a sua mea culpa pelos crimes que cometeram quando se apresentavam como os defensores do mundo livre contra a ameaça comunista, pelos crimes que continuam a cometer em nome da democracia e contra o terrorismo.

O mundo precisa que os EUA tenham a coragem de retirar a máscara de superioridade moral com que continuam a apresentar-se ao mundo, enquanto os seus aviões continuam a massacrar civis inocentes no Afeganistão.

O mundo precisa de paz, de justiça e de prosperidade para todos. Está farto de políticos e de generais sempre prontos a inventar mais uma guerra.





sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

TERRAS DO DEMO




As férias são um bom momento para viajar. Mas pode-se viajar sem estar em férias. Provavelmente a melhor maneira de viajar é ler um bom livro no calor íntimo do inverno com o frio e o vento a soprarem lá fora.



Mas as férias têm a seu a favor a disponibilidade, vai-se andando, encontrando pessoas, coisas novas e até recordações. Viajar, estar em férias pode ser bom para se encontrar os outros, reconhecer, inventar novos lugares, sabermos em que mundo vivemos.


É que o mundo em que vivemos não é de hoje, tem muitos anos por detrás, sejamos humildes, procuremos os sinais do que vem daqueles tempos. Nós pertencemos a um mundo muito velho, ou seja, antigo, cheio de lições, de caras, de rostos, de gestos, de personagens. Finito l’introito, ite missa est.


Fui às Terras do Demo. Mas que diabo é que é isso das terras do demo? Aquilino Ribeiro, sabem quem é?


Não vou falar do Aquilino Ribeiro, claro que sabem quem é.


Aquilino era o inimigo de estimação do Salazar. Não admira porquê. Ambos tinham a ver com a Igreja. Pudera! Nesses tempos, havia alguma coisa para além da Santíssima Igreja Católica Apostólica Romana?


Aquilino era filho de padre, andou pelo seminário, o Salazar não era filho de padre mas consagrou-se à Igreja, era o que restava aos jovens desse tempo. Pobre Salazar, nunca foi muito além de Santa Comba, foi até Lisboa, passando por Coimbra. Lá conheceu o seu dilecto amigo futuro cardeal Cerejeira, moraram no Palácio do Grilo e depois fundaram o Centro Académico da Democracia Cristã, CADC.


Mas voltemos ao Aquilino. Salazar odiava-o, porque eles eram muito parecidos e, ao mesmo tempo, completamente desiguais. Ambos eram do distrito de Viseu, o Cavaquistão como diríamos hoje, o Salazar era de Santa Comba Dão, quem não sabe isso, o Aquilino era do Carregal da Tabosa, concelho de Sernancelhe.



O Salazar era reaccionário e beato, Aquilino tornou-se anarquista, deitava bombas, era anti-clerical. As voltas que o mundo dá.


Porquê toda esta história de verão?


É porque nos meus encontros de Verão ela me lembra muitas histórias antigas mas actuais.


Estive na terra do Aquilino, vi coisas novas, interessantes e lembrei-me de coisas passadas.


Lembrei-me do meu amigo Dr. Amadeu Baptista Ferro, veterinário, algarvio de Tavira que, por idealismo, decidiu transplantar-se para o cimo do distrito de Viseu, lá onde morava toda aquela gente muito pobre, os agricultores que pouco ganhavam para dar sustento á família. Ele resolveu ir para lá ajudá-los.




Um homem de estilo, aristocrata do espírito, democrata no trato com todos, sobretudo com os mais pobres.



Um espírito inquieto que a certa altura decidiu, isto nos anos 60, que era preciso homenagear o Aquilino, homenagear o seu génio, o seu testemunho daquele mundo perdido entre pedras, meio pagão e taumatúrgico, aquela miséria e aquela grandeza das gentes que conseguiam sobreviver contra as fatalidades a desafiar o destino.



A ideia do Dr. Ferro, o seu combate passou a ser construir uma biblioteca-museu Aquilino Ribeiro nas terras do Demo, em Moimenta da Beira.



O Salazar não gostou nada da ideia, a história meteu PIDE, homens de palha políticos da união nacional, dava um filme. Quem é que se interessa por estas coisas? Memória é coisa que dá demasiado trabalho, deixemos isso para o pessoal de Hollyood.


Só que agora nestas férias de verão, nestas viagens dei-me conta que o Aquilino é a imagem de marca para tudo o que é produtos da antiga beira-douro, vinhos, hotéis, artesanato, eu sei lá.



Agora põem a chipala do Aquilino em tudo o que é produtos regionais made in terras do Demo, a velha beira-douro dantes desconhecida e desprezada.



Abençoado Dr. Amadeu Baptista Ferro, meu amigo querido, herói da resistência à ditadura. Saravah!


Nesta história de Verão, de férias, ficam ainda muitas outras coisas para contar. Como diria o António Cartaxo, Portugal é uma história sem fim. O tempo vai correndo, não fujam, ele corre atrás de nós.