PEDALAR É PRECISO!

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

PASTÉIS DE NATA




Felizmente, seis meses depois de ter entrado em funções, o governo da república começou a dar algumas indicações sobre o que pretende fazer para tirar o país da recessão, da austeridade e da triste companheira de cada vez mais muitos milhares de cidadãos portugueses, a velha miséria.


O Governo mostra finalmente o caminho, está em marcha um vasto programa de redenção económica e social. Aleluia!


Hoje, o ministro da economia apresentou-se nas televisões de sorriso aberto e contente consigo próprio. É que estava radioso com o acordo dito tripartido que negociou na chamada concertação social com as organizações que representam os patronatos e os sindicatos.


O acordo é fácil de resumir: governo, patrões e uma confederação sindical concordaram em aumentar o tempo de trabalho, facilitar o desemprego e reduzir os salários. Nada de novo, porém. É que este tipo de acordos há muito que se tem repetido, quer o governo seja PS ou PSD.


A condição sine qua non para que tais acordos possam ser considerados tripartidos é a de que por baixo esteja a assinatura da UGT que, como todos sabemos, é a confederação sindical que, além de emanar dos partidos do bloco central, sempre se manifestou simpaticamente deferente perante os desígnios e vontades dos patronatos.

As deferências da UGT não podem deixar de ser interpretadas como uma vergonha e traição para o sindicalismo legítimo, aquele sindicalismo histórico que tem a obrigação de estar sempre na primeira linha na luta pelos direitos de quem trabalha.


Por outras palavras, a UGT aparece nestes processos de assinaturas de acordos tripartidos como uma espécie de loja Mozart travestida em ramo das lojas maçónicas que continuam fiéis à história e aos ideais da maçonaria.


A história da UGT tem sido sempre esta, para os seus sindicatos os interesses de quem trabalha não divergem substancialmente dos interesses de quem utiliza a seu belo prazer a força de trabalho, concordam em coro com os patronatos que para criar emprego nada melhor do que flexibilizar as regras do mercado de trabalho, supostamente para fomentar a criação de emprego. Quem trabalha, quem aspira a um emprego que pague a crise, esse é o lema da UGT. Obrigado, engº João Proença!




O ministro da economia, o governo estão, pois, contentes, venceram a batalha do consenso social e, assim sendo, vão poder aumentar o tempo de trabalho, vão poder obrigar os trabalhadores a aceitar qualquer trabalho que os patrões lhes imponham, vão permitir que os patrões despeçam empregados que estão a ficar demasiado caros para as suas contas e substituí-los por outros mais de borla. Grande passo no combate à recessão e à austeridade, o governo e os seus parceiros podem estar contentes e radiosos.


No grande plano de recuperação da economia portuguesa que este governo gizou, há, porém, ainda a considerar dois outros pólos importantíssimos: a emigração dos desempregados e os pastéis de nata.


Têm sido as duas outras grandes frentes de combate do sr. Passos e companhia no épico caminho pela redenção da economia portuguesa.


Duas frentes curiosamente apoiadas por um modelo de marketing desenhado a papel químico pelo exército de assessores de S. Bento, que devem, aliás, graças aos seus méritos, ganhar chorudas e merecidas remunerações.


Essas iluminadas cabeças disseram ao primeiro-ministro, a ideia é simples, pomos um ministro a falar acerca das enormes vantagens dos jovens desempregados emigrarem para os países da CPLP, isto é a primeira fase. Passados poucos dias, o sr PM vem apoiar essa fantástica ideia e procura entusiasmar em particular os professores desempregados a oferecerem os seus préstimos aos países lusófonos. O Brasil é agora a sexta potência económica mundial, é verdade que há lá muitos professores desempregados, mas, ò sr. primeiro-ministro isto é canja, os nossos professores lá se hão-de desenrascar!


O cenário repete-se, como previsto em relação aos pastéis de nata.


Para produzir pastéis de nata, não é preciso emigrar, basta o franchising. O sr. PM quando vai a Belém, certamente que já deve ter reparado nas enormes bichas de turistas feitos parvos nos passeios à espera da esmola dum pastelinho!


O ministro Álvaro foi o primeiro a achar a ideia genial. Convém acrescentar que a imaginação do homem tem estado em trabalho permanente, precisa de dar nas vistas, senão morre como ministro, tem que apresentar soluções miraculosas. Teve a ideia das concessões de minas. O problema é que nunca mais se ouviu falar disso.


Alguém lhe soprou ao ouvido e lá foi ele à televisão, aos jornais, elogiar os famosos pastéis de nata.


O sr. Passos, seu chefe, ficou deslumbrado com a ideia e hoje, num gesto de grande cumplicidade, veio confirmar esntusiasmado o grande projecto económico do seu ministro mais problemático: não há nada melhor do que um bom pastel de nata! Comamo-los, exportemo-los, franchisemo-los, tudo isso contribuirá para que a economia portuguesa entre no bom caminho.


E, assim, nas vésperas de a Grécia entrar em falência e deixar o caminho aberto para o protagonismo de Portugal no papel de próxima vítima na roleta russa dos defaults, no jogo das especulações das agências de rating e do capitalismo criminoso internacional, o governo PC (P. Coelho), encontrou o seu rumo para a salvação nacional.


Contra a troika, contra as agências de rating, contra a Alemanha, contra Wall Street, contra a falência, marchemos, de pastel de nata na mão, rumo à Terra Prometida.


Salvar-nos-emos da bancarrota e, o mais tardar em 2050, o pastel de nata será a pizza dos países agora emergentes que passarão a mandar no mundo global.


Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

CUMPLICIDADES MAÇÓNICAS E NÃO SÓ


Os jornais e as televisões precisam de leitores, procuram audiências, estão no seu direito. Nas últimas semanas têm falado muito de maçonaria. Talvez tenham razão, talvez esteja em curso uma espécie de guerra entre obediências maçónicas, de cujo desfecho depende o fim da crise financeira e da depressão.


Por mim, a maçonaria é uma coisa demasiado velha, kitsch. Estou-me nas tintas para histórias de maçons com aventais, tudo isso é ridículo e patético. A única coisa que me chateia é que tenham metido ao barulho o nome do Mozart nesta história de pacóvios. Mozart é Mozart, haja respeito.


A primeira vez que ouvi falar de maçonaria, andava no liceu, foi nas Pupilas do Senhor Reitor, do Júlio Dinis, que é um escritor injustamente esquecido. As histórias de maçons já são muito antigas, há histórias para todos os gostos. Para minha memória pessoal, prefiro reter os maçons setecentistas, a gente iluminista anti-clerical, o pessoal da Enciclopédia.


Júlio Dinis descrevia um conflito numa aldeia do Minho, já não me lembro muito bem onde, um conflito, resumamos entre tradição e modernidade a propósito dos cemitérios, o que no caso significava uma espécie de guerra entre conservadores ligados á Igreja Católica e liberais estrangeirados, os chamados pedreiros-livres. Nessa época era este o nome dos maçons. Maçon igual a pedreiro, a ideia maçónica vinha de França.


Não vou perder muito tempo com a história dos pedreiros-livres portugueses. Haveria tanta coisa para dizer. Mas, en passant, não resisto a lembrar que a primeira república começou com o assassinato do rei e do príncipe herdeiro, crimes cometidos por maçons, e que essa república foi um verdadeiro desastre.


Se nos vêm agora chatear com histórias de maçons social-democratas psd ou o que é que isso queira dizer, resumamos bloco central, de pedreiros que andam por aí à solta, a minha reacção óbvia é que o problema não está em haver gente que se presta a rituais e a proclamações ridículas, vestidos de avental.


Pensando bem, tudo isso, que em si é patético, é principalmente sinistro e preocupante.


Preocupante porque revela que desde há muitos anos a esta parte, desde que se inventou a democracia em Portugal, se têm constituído grupos corruptos e criminosos que têm agido à sombra e na intersecção dos poderes do Estado com o objectivo de conseguirem poder e benefícios para si próprios e para os seus amigos. E muita dessa gente tem agido concertadamente nos meios maçónicos.


Mas no essencial o que há a reter é que o assalto ao Estado tem sido obra de associações de criminosos tolerados pela justiça que nunca se dignou sequer fazer semblante de os perseguir.


É um facto indubitável, na sucessão interminável de histórias de corrupção e de confiscação da democracia, muitos dos seus protagonistas poderão ser gente da maçonaria. Consideremos, porém, que a verdadeira dimensão do confisco irá muito para além dos maçons. Trata-se, sobretudo, de bandos de mafiosos do bloco político que tem dominado ininterruptamente a política portuguesa desde Novembro de 1975.


Quando foi tornada pública a história daquele fulano que dirigia os serviços secretos que decidiu demitir-se, a pouco tempo de se realizar em Lisboa a cimeira da Nato, alegando para o efeito falta de recursos, e que depois se percebeu que o homem se tinha demitido para entrar numa empresa de nome inglês e de contornos misteriosos, a tal de Ongoing - going para onde? – escreveu-se aqui neste blog que esse cavalheiro era um traidor à Pátria e que devia ser julgado por um tribunal marcial.


Mas onde é que está a Pátria, onde é que está a tal de justiça, onde é que estão os governos que defendem a Pátria e a nação?


O vértice do aparelho de Estado tem sido controlado sistematicamente por grupos de corruptos mafiosos, com os resultados que estão à vista.


A questão que se coloca agora, com todos estes folclores de maçonarias, nesta época a que chegámos, época em que os mais fortes todos os dias extinguem os direitos dos mais démunis e mais fracos e que reservam para si os mais altos salários, rendimentos e benefícios, nesta época em que aqueles que todos dias trabalham por salários cada vez mais baixos ou que todos os dias procuram um emprego impossível e rezam a um deus desconhecido para que não se esqueça deles e os ajude no pânico e nas privações em que vivem, nesta época desgraçada, a questão que se coloca é inevitável: até quando é que isto vai continuar?


A crise da dívida soberana está no auge. Haverá algum dia, alguém, algum político neste país capaz e com coragem para extrair com toda a legitimidade democrática as consequências que se impõem quanto aos actos da canalha que tomou conta do vértice e dos interesses de Estado do país humilhado e castigado que somos?


As narrativas, como agora se diz, as efabulações com que se adormece o povo têm uma vantagem óbvia, elas fazem-nos esquecer a crise, fazem-nos esquecer os criminosos da crise.


Há muita gente corrupta e sem escrúpulos para meter na cadeia, não estou a pensar no pessoal que dinamita caixas de multibanco. Estou a pensar principalmente em políticos. Não vou fazer uma lista, isso iria levar muito tempo e seria certamente inútil.


Estou a pensar na nova classe de poderosos que nos governa, neste bando de malfeitores agora confortavelmente instalado no poder, bando que justifica os seus proveitos graças à democracia, que manda no parlamento, que manda no governo, que impõe novos impostos e rouba as pessoas com menos recursos, bando que prepara o assalto dos banqueiros à Segurança Social, que aumenta as taxas moderadoras, que distribui tachos milionários pelos amigos, que agradece à crise da dívida soberana a extraordinária oportunidade de poderem fazer fortuna.


Estamos confrontados com um problema crucial e definitivo, que é o da total impunidade destes bandos que controlam o poder. Maçonarias, máfias, chamem-lhe o que quiserem.


A justiça e a democracia são incapazes de neutralizar essa gente e metê-los na cadeia. Pensemos, pois, em soluções alternativas.


Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

LIÇÕES BRITÂNICAS SOBRE AS CRISES DE SOBERANIA


Os resultados da cimeira europeia de 9 de Dezembro, apresentada por Sarkozy como a cimeira da última oportunidade, suscitaram uma torrente de comentários entusiásticos. Pareceu-me tudo um bocado forçado e prematuro.


Passado o fim-de-semana, a maré dos encómios parece ter arrefecido.


Na segunda-feira, as bolsas avermelharam, na terça continuam vermelhas.


Ainda na segunda-feira, o provável próximo presidente francês François Hollande veio declarar quase solenemente que, se for eleito, vai renegociar aquela coisa que foi acordada na dita cimeira, sob imposição da Alemanha, coisa que não é um tratado, mas que alguns insistem em designar como tratado inter-governamental, como se tal coisa existisse.


Mas a nota dominante do pós-cimeira foi a grande ofensiva mediática contra o Cameron inglês. O próprio vice-primeiro-ministro inglês liberal malhou no homem.


Tudo muito sintomático do clima de medo e de pânico a que chegaram os euro-entusiastas.


Propaganda anti-inglesa à parte, ainda não se sabe quantos países é que afinal vão assinar a tal coisa. São 26 ou, afinal apenas 23, ou, sabe-se lá, talvez menos?


O que é que se deve reter de toda esta história de cimeiras da última oportunidade? Por mim, vale a pena reter principalmente algumas lições britânicas.


Primeira lição: quando, no início do século XIII, o parlamento inglês impôs a Magna Carta ao rei João Sem Terra, ficou então assente que ninguém, seja quem for e quaisquer que sejam as circunstâncias, está mandatado para exercer o principal acto de soberania de um país, o qual consiste em fixar e aprovar impostos. E ficou escrito que tal acto pertence exclusivamente ao parlamento.


Na circunstância da dita cimeira de 9 de Dezembro, poderia o primeiro-ministro inglês, Cameron or not, convidar a doutora chanceler alemã Merkel para ser ela a decidir sobre o orçamento do Reino Unido, país que teve o privilégio histórico de impor há oito séculos a Magna Carta ao Joãozinho sem terra?


Segunda lição, que não foi devidamente ponderada, apesar do actual desastre resultante de anos e anos de fantasias comunitárias europeias.


Os mandões da chamada união europeia, cujo aparelho de propaganda desencadeou uma operação sem precedentes contra o primeiro-ministro inglês, deviam dar-se por felizes por terem o Cameron em Downing Street. É que, no limite a que as coisas chegaram e face ao que pensa a opinião pública britânica, ele é o único político que tem neste momento capacidade para impedir que o United Kingdom saia da tal de união europeia.


Porém – e essa é a grande, a verdadeira grande questão - resta saber de que união se trata.


A ocasião é propícia para se debater, pela primeira vez discute-se a Europa. Debata-se, então, a Europa, ou seja, passemos das abstracções que nos têm sido impingidas pelos burocratas de Bruxelas ao longo dos anos e pensemos a Europa real.


A Europa não existe, existem várias e elas são todas muito diferentes. Existem interesses comuns? Existem alguns, claro, esqueçamos as guerras. O principal e óbvio interesse comum inter-europeu, o interesse decisivo é o comércio.


O comércio não envolve apenas transacções de coisas e de serviços, o comércio tem a ver com pessoas e com culturas, ele é a mais pacífica e profícua das actividades inventadas pelos homens. Sejamos, pois, realistas, apostemos no comércio entre europeus como base para um entendimento pacífico entre as nações do velho continente. Aprofundemos esse entendimento em bases sólidas.


Terceira lição inglesa, consequência da anterior. Os british estão muito interessados em pertencer a um conglomerado europeu, que dantes se chamava Mercado Único Europeu e que depois derivou para perigosas fantasias, a mais perigosa das quais é a chamada moeda única, o fatídico euro.


Estão interessados em comerciar com os outros europeus, mas não prescindem da sua moeda. Estão interessados em manter relações económicas e culturais com os seus vizinhos do continente, mas não aderiram nem vão aderir ao chamado espaço Shengen.


Talvez outros países queiram ter entre si uma moeda comum, talvez não se importem de abrir as suas fronteiras. Entendam-se, aprendam a conhecer-se. Mas, para isso, não é preciso fundar um bloco granítico, estilo império germânico.


O Cameron e a maioria dos ingleses estão interessados na convivência com o pessoal do “continente”, mas não querem blocos, querem continuar a ser british, não querem patrões. Querem continuar livres e soberanos.


Nunca renunciarão aos princípios básicos da democracia moderna que eles fundaram.


Continuam a ser uma peça-chave da liberdade dos povos europeus e, por isso, de algum modo todos os europeus se devem sentir ingleses. Os europeus com memória continuam a reverenciar Winston Churchill.


Esperemos que os povos do continente apreendam a lição da democracia britânica e não se deixem intimidar pela polícia germânica.


Polícia germânica, vem a propósito para um último comentário.


Talvez a cimeira de 9 de Dezembro tenha sido a da última oportunidade.
Da última oportunidade para a Alemanha, entenda-se.


A chanceler Merkel conseguiu nessa reunião do tudo ou nada exactamente tudo o que queria, impôs a sua vontade, esticou a corda até aos limites. Penso, no entanto, que foi uma jogada demasiado arriscada, que poderá virar-se contra os interesses da vontade de poder germânica.


A disciplina, as invasões de soberania e as punições impostas pelos alemães vão ser um fiasco. A disciplina alemã não vai resolver a crise chamada de dívida soberana, que na realidade é uma crise social que não contempla últimas oportunidades para muitos e muitos desgraçados. Vai provocar revolta e miséria, miséria e revolta. Belo cocktail!


Falhando a disciplina alemã da última oportunidade imposta aos países europeus com a corda na garganta, o que é que tem a Alemanha para oferecer? Terá um plano B (C, D…)?



Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

GOD SAVE THE QUEEN!


Quatro da manhã, hora fatídica, apareceu-me o Sarkozy na televisão. A culpa não será apenas da insónia propriamente dita. Porque cada insónia tem a sua explicação. Talvez tenha que desligar na minha cabeça o interruptor das cimeiras da chamada união europeia. Porque daí não sai nada que valha a pena e muito menos coisa que substitua uma noite de descanso.


Lá estava o Nicolas dos anúncios do licor beirão, em Bruxelas eram cinco da matina, o homem tinha um ar cansado mas estava perfeitamente desbarbeado e penteado, imagino que terá também sido massajado, ser presidente tem exigências mas também as suas compensações.


Estava em Bruxelas e apareceu no ecrã emoldurado pela bandeira francesa tricolor, parecia que estava em casa. Nos últimos tempos, esta cena tem-se repetido, ele com a bandeira tricolor ao lado a explicar o inexplicável e a defender tudo e mais alguma coisa e o seu contrário.


No meio da minha insónia, esforcei-me por perceber o que é que o homem tinha de importante para anunciar.


Respondeu a muitas perguntas de jornalistas, repetiu-se, mas as perguntas que eu gostaria de lhe fazer não tiveram resposta.


Sobre o reforço do papel do BCE e sobre as euro-bonds, o homem não foi explícito.


Deixou cair a certa altura que o BCE ia passar a emprestar directamente dinheiro aos bancos europeus à taxa de 1% e que esses bancos poderiam comprar dívida aos respectivos governos, o que obviamente teria inúmeras vantagens, em particular a de por à disposição dos governos em dificuldade taxas de juro muito mais favoráveis do que as que são praticadas pelos famigerados mercados.


O Nicolas disse isto entre as quatro e as cinco da manhã, hora portuguesa, mas esta versão não foi confirmada por mais ninguém. Deve, pois, ser treta explicável pelo adiantado da hora.


Nesta sexta-feira negra anunciada como a da salvação do euro, o que eu ouvi, algumas horas depois da performance sarkosiana, é que o BCE ia emprestar até 200 mil milhões de euros ao FMI, para que, na posse de tão extraordinária quantia, essa venerável instituição se digne impor a alguns países europeus em dificuldades a oportunidade de se submeterem às draconianas condições, incluindo taxa de juros, do fundo da sra. Lagarde, sucessora do saudoso DSK.


Ò Sarkozy, apesar de devidamente escanhoado e maçajado às 5 da manhã, hora de Bruxelas, não conseguiste, em directo para as televisões, disfarçar que estavas mesmo chateado. Tinhas razões de sobra.


Chateado, impotente e a fazer um triste papel.


É inevitável, a cimeira desta negra madrugada de 9 de Dezembro de 2011 vai ser uma triste recordação para ti, Nicolas.


Repara bem, a doutora em Física, ex cidadã RDA e actualmente chanceler alemã Angela Merkel conseguiu obter nesta infernal cimeira aquilo que nenhum outro chanceler alemão seu antecessor conseguiu. A mulher tem mérito, conseguiu pôr a Europa de joelhos. E tu ajudaste, Nicolas, é o teu karma!


Repara bem, Nicolas, não houve propriamente nada de novo quanto aos tratados europeus de que tanto se tem falado.


O que foi decidido nesta madrugada negra quanto ao essencial das punições, regras e consequências para quem não cumpre os pactos de estabilidade e crescimento, vulgo PEC’S, tudo isso já está previsto no tratado de Maastrich, cidade holandesa de triste memória.


Os primeiros e únicos que prevaricaram contra esse tratado foram, aliás, a Alemanha e a França.


Resumamos, Alemanha e França têm esta tradição de países com aspirações imperialistas que é a de imporem regras e castigos aos países menores que não sabem obedecer às regras. Obviamente, essas regras não são aplicáveis a quem tem autoridade para mandar.


O que é que há então de novo no novo projecto de tratado?


O que há de novo é que quem assinar o dito tratado vai assumir explicitamente e sem qualquer margem para dúvidas que doravante se submete ao domínio germânico sobre a Europa. Passa a haver uma lei, a lei de Berlim e em breve a língua dominante passará a ser o alemão.


Percebo que estejas chateado, Nicolas. Tens andado a fazer figura de parvo e, nas próximas eleições, em Abril vai-te acontecer o mesmo que aconteceu ao Lionel Jospin em 2002, quando ele ficou atrás do LePen e não foi à segunda volta das eleições com o Chirac.


Talvez porque estava apanhado no meio da minha insónia televisiva, tive a sensação de que havia muitas coisas importantes que estavam a acontecer e sobre as quais não conseguia encontrar explicação. É natural, a televisão é apenas uma mise-en-scène para durar meia hora, é coisa que se usa e logo a seguir se deita fora, prazo de validade efémero.


Mas, antes de voltar a adormecer, ficou a trotar na minha cabeça uma questão óbvia.


Os países que vão assinar, até Março, o tal de novo tratado – que, de facto, não é novo – aceitam ser punidos por incumprimento das regras estipuladas pelo tal tratado – regras que já existem desde Maastrich. As punições poderão ir desde o pagamento de multas até a perda de direitos de voto e coisas no género.


Mas o que é que acontece se um determinado país chegar à conclusão que já não está interessado em continuar no euro ou na UE?


O tratado é omisso sobre essa hipótese.


Quando foi da história do referendo grego do Papandreou, a Merkel e o Sarkozy deram a sua sentença: se a resposta grega fosse desfavorável, os gregos tinham que sair do euro. Ora isso, não estava previsto nos tratados e o primeiro a chamar a atenção para a incongruência franco-germânica foi o novo presidente do BCE, o italiano Mário Draghi.


O que é que diz o novo trado sobre isso? É omisso, ou seja, se assinas o tratado germânico-francês, sujeitas-te para toda a vida a andar a pagar multas e a ser escravo, sem direitos, só obrigações, só punições. Ou obedeces, ou és invadido e ocupado.


A União Soviética, ao pé disto, foi um império democrático.

Por outras palavras, saberão os países europeus, que não pertencem à elite dos países nórdicos virtuosos que, no momento em que assinarem o supostamente novo tratado, estarão a assinar a sentença de morte da sua liberdade e da sua soberania?


Perceberão que essa assinatura não lhes deixa qualquer margem de recuo em relação às imposições do euro e da ditadura germânica?


Não, a maior parte dos representantes dos países que estiveram na cerimónia da sexta-feira negra de Bruxelas não conseguem ou não querem perceber, fazem cálculos, fantasiam, para eles o euro é uma espécie de pai natal, acreditam, fazem sorrisos parvos.


Ò Nicolas, fizeste um triste papel e tens consciência disso.


Mas, o que te custou mais a engolir foi que o Cameron inglês te tenha mandado dar uma volta a ti e ao teu tratado germânico. Será que pensaste em Vichy e no Pétain?


O Cameron é o Cameron, é a burguesia conservadora britânica, a da Thatcher. Deus lhes perdõe.


Mas, no transe que estamos a viver neste para já desgraçado novo século e milénio, tal como em 1939, do que precisamos é duma frente de recusa de ditaduras continentais e de neo-fascismos.


Valha-nos, pois, a velha Albion. God save the Queen!




Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

FERIADOS E LITURGIAS DE SUBMISSÃO


Esta história dos feriados que o governo quer abolir é uma triste história. Triste história dum país cada vez mais triste.


Temos um governo de direita dura, direita duramente neo-liberal. Há muitos governos desses por aí, por essa Europa à deriva e à beira do abismo do default.


Ainda hoje uma das célebres agências de salteadores internacionalmente reconhecidas e receadas, a Moody’s, veio anunciar que o tal de default, falência, bancarrota, falta de dinheiro é o que quer dizer a palavra inglesa, o tal default ameaçava toda a zona euro, incluindo obviamente a Deutschland über alles.


A Moody´s não mencionou explicitamente os outros 10 países europeus da ex-CEE. Esqueceu-os, mas não devia esquecer, porque esses países estão todos na bicha (passe a palavra) do tal de default. Como por exemplo, a Inglaterra e a Hungria, já para não falar da Roménia e da Bulgária, mas estes são países onde 99% da população há muitos anos vive na miséria do default, ou seja, gente que não tem que comer. Adelante.


Temos então o nosso democrático governo de direita, fidelíssimo governo de sua majestade frau Merkel, ela diz mata-se, o Coelho diz esfola-se (credo, sr. Coelho, que raio de ideia!). A sra. Merkel é contra os eurobonds, o sr. Coelho acrescenta: abaixo essa perigosa heresia! A sra. Merkel bate com o punho na mesa, o BCE apenas tem que se preocupar com a inflação e a estabilidade dos preços, o sr. Passos aplaude desmedido e eufórico.


A CGTP e a UGT organizam a greve geral, muito povo segue, muito povo luta e até alguns vêm para a rua, o sr. Coelho não fica nada preocupado, sente que tem o dever cumprido, é um bom aluno mais merkelista e troikista do que os seus patronos.


Mas tudo isto, esta história da euro-zona, da UE, está tudo a ir na enxurrada duma tempestade tsunâmica que ninguém já consegue evitar, nem o Obama, nem a Merkel, nem o Monti, nem o fantasma do Mao Tse Tung. E nada do que se passa aqui neste Portugal à beira do mar da palha e do fado património “mundial”, nada é relevante, tudo o que vier a acontecer vai acontecer vindo de fora. Vai vir de onde? Sabe-se lá? Do Olimpo dos deuses do rating, da especulação, da ladroagem, aceitam-se apostas.


Quantos viverão para contar tal história só digna de Ulisses e de Homero?


O primeiro-ministro português impõs o seu orçamento made by the troika, discutiu-se, mas só se falou dos cortes dos subsídios de natal e de férias, falou-se dos cortes contra os quais o novo líder do povo da esquerda popular e democrática PS concentrou os seus esforços tácticos de político que quer sobreviver.


Mas não se falou do resto, dos cortes na educação, na saúde, na cultura, nos transportes públicos and so on e principalmente esqueceu-se o mais importante: por que hão-de ser os reformados e os baixos salários a pagar a crise?


Trabalham ou trabalharam pouco, trabalham ou trabalharam mal e, por isso, têm que ser castigados?


A classe dominante tem todos os poderes, não apenas o de ter muito dinheiro e muito poder sobre o dinheiro, sobre os empregos, sobre os benefícios, sobre os tachos, sobre os subsídios, sobre as derrogações aos planos municipais para favorecer os amigos que querem construir um pequeno empreendimento turístico em zona ambiental protegida.


Têm esses e muitos outros poderes, mas de todos o mais criminoso é o que consiste em conseguir convencer, através das suas televisões e outros mass media, aqueles que são a maioria da população, aqueles pobres desgraçados, que trabalharam uma vida inteira, que mal ganhavam ou mal ganham para se sustentarem a si próprios e à sua família, conseguir convencê-los que eles não trabalham ou não trabalharam o suficiente.


Convencê-los que eles são os responsáveis do “empobrecimento” de que nos fala com voz meiga o sr. Coelho primeiro-ministro, e que, assim sendo, têm que se esforçar e que se sacrificar muito mais.


Que poder o dessa gente que apenas tem sabido roubar e explorar, o poder de serem capazes de conseguir que os desgraçados que exploraram e que continuam a explorar se deixem convencer e assumir que têm a obrigação de aguentar e de se sacrificarem mais ainda. Tenho assistido a exemplos disso na televisão. Grau máximo da ignomínia.


Têm que trabalhar mais tempo, é isso, têm que se sacrificar muito mais, Deus é grande!


Mais meia-hora diária, talvez uma ou duas horas daqui a uns meses, o patrão agradece, obrigado sr. Coelho!


Trabalhar mais dias por ano, ter menos feriados, menos pontes.


Acabe-se, pois, com os feriados.


Triste história, diria triste fado, este dos feriados.


Vivemos num estado laico, mas é um estado laico com muitas excepções vaticânicas.


Nas cerimónias oficiais, lá temos quase sempre numa mesinha ao lado mas em cima do palco o sr. Bispo da diocese ou o sr. Cardeal. Tudo como no tempo do dr. Salazar.


Dos mesmos tempos, herdámos o Dia do Corpo de Deus – alguém sabe o que é que isso quer dizer? – e o dia da Nossa Senhora da Assunção (15 de Agosto). Nesse dia de ferragosto, pico do Verão, o povo fica a olhar para o céu tentando vislumbrar o foguetão que leva os anjos que seguram a Nossa Senhora em direcção ao céu. Valha-nos a Virgem Santíssima!


Nunca percebi por que razão é que em vez deste dia 15 de Agosto, não se celebrava o dia anterior, 14 de Agosto, aniversário da grande batalha de Aljubarrota, que selou para sempre o destino de Portugal.


Em Dezembro temos mais um feriado religioso, em que se comemora a mesma senhora santa da dita assunção.


Mas nesta data, a santa senhora chama-se Senhora da Conceição. Conceição, concepção, nunca percebi como é que a mãe de Jesus Cristo conseguiu ficar grávida no dia 8 de Dezembro e dar à luz passadas pouco menos de duas semanas. O Papa é infalível, deve ter uma resposta.


A esta lista de feriados religiosos acrescem ainda a sexta-feira santa e a Páscoa (mas este é um feriado que calha sempre ao domingo), o dia de Natal e o 1º de Janeiro que também é um feriado religioso, dia da paz ou coisa parecida.


Todo este calendário de feriados religiosos já vem muito de trás. Não tenho nada contra, nada contra o direito à preguiça, como diria o ilustre Paul Lafargue, ilustre genro do ilustre Karl Marx.


Mas, se querem acabar com os feriados e castigar o desgraçado povo que trabalha todos os dias úteis do anos, castigá-lo com a sem esperança de um pequeno feriado de tempos a tempos, então acabem com todos os feriados religiosos. Deixem-nos apenas o Natal, pois, além de feriado religioso, é um dia feriado que alimenta muitos empregos.


Mas, atenção srs. vassalos da Frau Merkel, não toquem nos feriados civis. Pequena excepção: porque se trata de um feriado concebido para que a nomenklatura que nos explora se possa pavonear em nome da nação que eles desprezam, não tenho nada contra que acabem com o 10 de Junho, dia da raça, Cavaco dixit, dia de Camões e de mais não sei o quê.


Nos tempos que correm, tempos de abismo euro-europeu, com as fronteiras que de novo de vão fechar e de nacionalismos à solta, não nos retirem os símbolos da nossa independência e da nossa identidade, não toquem no 25 de Abril nem no 1º de Maio. E, em homenagem à República laica de 1910 deixem em paz o 5 de Outubro.


Quanto ao 1º de Dezembro, dia da restauração, mais do que nunca se impõe que se mantenha esse símbolo da nossa sofrida história, para que continuemos independentes e orgulhosos da nossa soberania.


Se querem ir mais longe na memória do país mais antigo da Europa, então substituam o 1º de Dezembro pelo dia 6 de Abril, dia que evoca o ano de 1385, quando o povo português, contra as pretensões do rei de Castela, proclamou nas Cortes de Coimbra o Mestre de Avis como Rei de Portugal e dos Algarves.


A história deste antigo país recordar-vos-á, sr. Coelho e apaniguados, em três linhas de nota de pé de página. Resta-me, pelo menos, essa consolação.





Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

“NOVO RUMO” OU “RUMO À VITÓRIA”?


A política de esquerda à portuguesa, além de cansativa e demasiado previsível, parece-se cada vez mais com um recreio de escola, com os miúdos a brincarem e a agredirem-se uns aos outros, é verdade que dali não vem mal ao mundo, na pior das hipóteses, vai ficar tudo na mesma.


A esquerda portuguesa, essa é a tradição, está cheia de boas intenções e de ideias gerais generosas. Com alguma frequência e ritmo ao jeito de um baile bem ordenado, lá vão aparecendo os eventos, como agora se diz, em que a dita esquerda manda mensagens supostamente dirigidas ao povo.


Não me estou a referir às procissões que desfilam aprumadas e gloriosas pela avenida da Liberdade abaixo. Gloriosa avenida da gloriosa liberdade!


Procissões sindicais, na maior parte das vezes, procissões partidárias exclusivas do PCP pois nenhum outro partido tem capacidade para se aventurar por um espaço tão largo e interminável.


Procissões de professores ou de indignados cuja metafísica política nos deixa frustrados, porque não sabemos afinal quais são as causas que levam esta gente a vir para a rua atrapalhar o trânsito?


Estou a pensar numa simples folha A4, um daqueles espaços em branco que acabam por ser preenchidos por alguma mente de esquerda subitamente inspirada por uma ideia genial, agora é que vai ser. Gente inspirada, não diria pelo espírito santo, mas suficientemente motivada e disponível para reunir um pequeno grupo de apaniguados, de compinchas decididos a agitar as massas para as grandes tarefas urgentes e inadiáveis.


Tivemos hoje o último exemplo, muito interessante, desta vocação e destino do activismo português de esquerda em prol das grandes causas. O apelo dado à estampa na comunicação social de hoje, designado de Novo Rumo começa por ser um documento sociológico. É encabeçado por Mário Soares e é subscrito por alguns ilustres uns mais desconhecidos que conhecidos, tanto quanto percebi, tudo gente da área socialista, ou seja, afecta ao grande partido socrático da esquerda popular e democrática.


Como qualquer documento político que se apresente como apelo às massas, o tal de Novo Rumo tem ditos e não-ditos.


Imagino a sua factura como o resultado de uma espécie de recreio inter-geracional, com miúdos acabados de sair da faculdade e que esperam tornar-se pessoas importantes altamente consideradas, secundados por gente já mais madura e bem instalada mas que continua a cultivar o hobby de uma sociedade melhor, tudo gente tutelada por alguns seniores sobreviventes e teimosos, senadores que não desistiram de se mostrar, de dar a sua opinião. Com plenos direitos de cidadania, quem é que vai contestar isso.



Além do carácter de óbvio exercício de divertimento recreativo, o documento é uma espécie de pot pourri dirigido às crianças pagãs que frequentam aulas de catequese. Não se auguram muitas conversões à verdade e fé teológicas que são propagandeadas.


“Não podemos assistir impávidos à escalada da anarquia financeira…” proclamam os autores. Olhe que não, Dr. Mário Soares, olhe que não! Como é que vamos deixar de ser impávidos? Tem alguma solução miraculosa contra a impavidez? Olhos os olhos, diga-me lá, o que é que vai fazer para encerrar tal espectáculo? Aviões em zona de exclusão aérea?


Percebi que o que preocupa os autores do apelo é principalmente que tal anarquia coloque “em causa a sobrevivência da União Europeia”. Criticam a dita união por ter acordado “tarde para a resolução da crise monetária, financeira e política em que está mergulhada”.


Tais preocupações são-me totalmente indiferentes, estou-me completa e definitivamente nas tintas quanto ao eventual futuro da união soviética europeia. As razões de tal indiferença já aqui foram explicadas, porventura com demasiada insistência.


Ò Dr. Soares, wake up! Dos políticos europeus no activo. V. Exa. é um dos últimos que teve a oportunidade de frequentar e de conhecer, diria eu intimamente, alguns dos principais líderes europeus.


Então, Dr. Mário Soares ainda não percebeu que esta história da crise das dívidas soberanas europeias que tem servido para justificar o cerco político-financeiro aos chamados países periféricos da Europa, tudo isso não passa afinal dum complot da frau Merkel e dos seus apaniguados germano-capitalistas para levar avante o velho sonho germânico para dominar a Europa e, através da Europa, o Mundo? Ainda não percebeu isso ou anda a dormir?


Novo Rumo ou Rumo à Vitória?


Em Abril de 1964, Álvaro Cunhal escreveu para o Comité Central do PCP, o Rumo à Vitória. Dez anos antes do 25 de Abril.


Talvez o Dr. Soares, que foi compagnon de route do dr. Cunhal ganhasse alguma coisa em reler agora este texto cunhalista. Porque isso de rumo, isso é uma palavra um bocado messiânica. Indiscutivelmente era messiânica na mente do líder comunista, acabado de sair da fortaleza de Peniche.


E messiânica continua a ser porque é provavelmente o texto que melhor suporta a originalidade ideológica e política da militância PCP. Uma espécie de bíblia de prosélitos.


Messiânica porque apelava os mais crentes e os menos crentes à luta contra o fascismo.


Contra quem apela agora o Dr. Soares e seus acompanhantes? Contra o capitalismo, contra as agências de rating, contra a frau Merkel?


Leia, Dr. Soares, o Rumo à Vitória, ponha os seus jovens amigos a discutir as teses do Dr. Cunhal. O Dr. Cunhal era marxista-leninista, tinha muitas culpas no cartório. Mas tinha uma qualidade ímpar: o Dr. Cunhal não papagueava, não se limitava a dizer o que lhe vinha à cabeça, estudava, trabalhava muito.


O Dr. Álvaro Cunhal foi até aos dias de hoje o autor das análises mais certeiras acerca da sociedade portuguesa. Mas não se limitou a ser sociólogo, tirou daí consequências e conclusões nem sempre acertadas mas no essencial, em muitos casos, incontestáveis.


Relembremos algumas das coisas que, em 1964, Cunhal escreveu a propósito das consequências da adesão de Portugal à EFTA em 1960 e sobre a eventual adesão ao Mercado Comum (e aqui socorro-me da síntese do meu velho amigo XicoMelo):


— liquidação das pequenas e médias empresas, e cada vez maior domínio da economia nacional por um reduzido número de grandes grupos monopolistas;


— agravamento da exploração da classe operária, com a intensificação do trabalho, com o aumento do desemprego, com a diminuição dos salários reais;


— invasão do mercado interno por mercadorias estrangeiras com as quais as nossas indústrias não estão em condições de competir, com a consequente dependência de todo o nosso comércio externo;


— agravamento da crise da agricultura portuguesa, sujeita a medidas discriminatórias e de desfavor em relação aos produtos agrícolas, acentuando a dependência do comércio externo e piorando a situação económica geral;


— invasão renovada de capitais estrangeiros, interligando-se cada vez mais com o capital financeiro português, reforçando a dominação imperialista.


Tudo isto, claro, como sempre, em nome da concorrência e da competitividade!


Álvaro Cunhal advertia também sobre a eventual adesão ao Mercado Comum: não interessa a Portugal passar do domínio do imperialismo inglês no seio da EFTA para o domínio dos monopólios alemães-ocidentais e franceses no seio do Mercado Comum.


Dr. Mário Soares, o que está em questão não é a procura de “um novo paradigma para a UE”. A UE é chão cujas uvas foram parar principalmente aos bolsos dos ladrões e dos corruptos que afundaram Portugal.


Deixem-nos em paz, não nos chateiem, metam-se na vossa vidazinha de gente rica do norte sem sol e sem clima digno desse nome.


A União dita europeia é uma criminosa utopia ao serviço duma ditadura germânica liberticida e neo-colonialista.


Pode haver outra Europa? Pode, mas terá que ser uma Europa dos povos, sem burocratas, sem chanceleres.


Comecemos por um mercado comum dos países do sul, sem tratados de Maastrich, de Nice ou de Lisboa e sem Comissões de Bruxelas.


Um mercado comum com livre circulação de pessoas e de mercadorias, mas com tarifas aduaneiras e regulação financeira que nos protejam dos abutres europeus, asiáticos e americanos.


Uma união baseada no respeito democrático e que funcione na base da livre negociação e da imprescritível soberania de cada povo e nação europeias.


A velha esquerda não tem emenda, postas de pescada, grandes apelos às massas. Contra quem e a favor de quê?


Na praça Trahir, luta-se pela liberdade e pela democracia, contra os generais e os seus privilégios.


E em Portugal?


Temos amanhã o ritual de mais uma greve geral, vai dar em quê?


Esquerda sem emenda, cansativa e previsível.